quarta-feira, março 06, 2013

Do fado dos outros


Com a morte de chávez começam os elogios e as delações ao político. Da minha parte, sendo de esquerda, custa-me o carácter épico que pessoas deste espectro político lhe dão. Aos meios nem sempre consensuais contrapõe-se com obra feita no que diz respeito à diminuição da pobreza. Temos portanto um isaltino morais com oeiras do tamanho de um país e um ego que se estende no palco mediático internacional.

Para a esquerda (não me fazem escrever esquerda democrática que a isso chamo redundância; os que não são democráticos dificilmente chamo de socialistas), não existe problema em explorar as crenças populares, em curvar as regras do jogo democrático (que ele jogou), em manter relações estreitas com ditaduras pouco progressistas (e.g.: Irão), em invadir e abusar da cobertura mediática na venezuela, etc., etc. Contra-argumentações que exploram o pior carácter das oposições oligárquicas ou a ameaça ianque não são sérias, não porque irreais (ao contrário) mas porque não devem criar estados de excepções.

Para a esquerda tudo está bem porque o povo está menos pobre. Quanto a isso não tenho dúvidas, os dados assim o demonstram. Não tenho dúvidas também que se interromperam as desigualdades gritantes que se viviam naquele país. A minha questão prende-se com quão sustentável é esta diminuição da pobreza? Criaram-se indústrias? Investiu-se seriamente na educação (magalhães não contam)? O petróleo é uma fonte de estabilidade social ou mantém-se como a semente da discórdia entre portas e fora delas? Que mecanismos foram implementados para a população comum sair da sua condição de pobreza?
Relativamente às relações entre a população e o poder, houve mudança? Descentralizou-se o poder? Aprofundaram-se as formas de democracia directa em detrimento da democracia representativa? Diminuiu-se a distância entre os que têm o poder e o povo? O sentimento de insegurança é agora menor?

Sendo de esquerda fico contente do balão de oxigénio que os mais pobres receberem com as administrações de chávez. Contudo não me revejo no pensamento chavista: os meios não são defensáveis e os fins são duvidosos relativamente à eficácia. Infelizmente, quem vier a seguir não fará melhor. Se o sucessor vier das fileiras do partido de chávez irá faltar-lhe o carisma e, como tal, menos capacidade de manter a coesão social. Se, por outro lado, vier dos liberais de costados americanos (seremos todos tão inocentes ao julgar que os estados unidos não mantêm uma influência forte na américa latina, quer às claras quer pelos jogos da diplomacia mais underground?), voltaremos às desigualdades entre uma classe dominante, que sempre se protegeu atrás de muros e ameaças, e a classe popular, para sempre o elo mais fraco. Na venezuela devia-se cantar o fado.

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