sábado, julho 21, 2012

Morrissey


Pedro Mexia escreve sobre Morrissey e transcrevo na totalidade porque concordo na totalidade.

(...) Converti-me de imediato, até ao fanatismo, e assim me conservo, duas décadas depois. Stephen Patrick Morrissey chama aos seus fãs “discípulos”, e é fácil perceber porquê. Gostar de The Smiths nunca foi apenas uma questão musical mas uma maneira de ver o mundo, intensa, um pouco patológica, romântico-tardia, pessimista, arisca. Eu não sabia que havia gente a escrever canções assim, terrivelmente certeiras, agudas, ferozes. Em geral, a música popular traduz as angústias pós-adolescentes de forma directa e bastante eficaz, mas Morrissey é um génio da linguagem indirecta. Ele usava palavras rebuscadas, alusivas, obscuras, estruturas quebradas, uma métrica improvável e um vocabulário insólito. E tantas referências, de Wilde ao “Free Cinema”, de romances “out of print” a cinema de vanguarda, da imprensa tablóide a John Betjeman. 


Foi essa força verbal, um pouco misteriosa, que me atraiu logo. As canções contam experiências comuns, banais mesmo, mas a abordagem é estranhíssima, como não conheço outra, antes ou depois, citações a despropósito, divagações lúdicas, epigramas rimados, vinganças cifradas, “found sounds”. Não acho interessante chamar “poesia” às “lyrics”, que obedecem a uma lógica diferente, mas quase nada em poesia se comparava àquilo, mesmo na poesia inglesa, de que gosto tanto. Era como se estivéssemos a ouvir uma língua que nunca tínhamos ouvido. E pensem nos assuntos convocados: assassinos de crianças, reitores sádicos, rufias, a Rainha de Inglaterra, poetastros, homens virgens, encontros em cemitérios, vigários chanfrados, desastres de automóvel, mulheres corpulentas, homicídios de disc-jockeys, namoradas em coma. Em todas estas canções, nunca sabemos exactamente o que é patente e o que fica latente, tanto podemos estar no domínio do descritivo como do alegórico, cada um que interprete como quiser. 


(…) Num dos meus temas favoritos dos The Smiths, “Rubber Ring”, fala-se daquelas canções que “ultrapassámos”, ou que julgamos que ultrapassámos, “Yes, you’re older now, and you’re a clever swine”; aquelas canções que um dia nos comoveram e nos salvaram a vida e que entretanto esquecemos. Morrissey recorda: “They were the only ones who ever stood by you”, foram as únicas que estiveram ao nosso lado. E pede para não nos esquecermos delas, para não nos esquecermos dele: “Hear my voice in your head and think of me kindly”, ouve a minha voz e mostra-te grato.

Sem comentários: