domingo, maio 23, 2010

Do dia de ontem

Ontem tive a oportunidade de ver duas exposições que fortaleceram a minha opinião sobre os artistas exibidos e que no processo me deram a conhecer dois espaços magníficos.

Na Galeria Carlos Carvalho Arte Contemporânea, Daniel Blaufuks expõe “O Ofício de Viver”, uma série fotográfica baseada nos diários de Cesare Pavese, centrada na volatilidade das recordações.  A fotografia aparece-nos aqui no seu papel primordial de cristalizar os momentos como forma de memória per si e não apenas documental.

As fotografias são apresentadas em vários formatos, a cores e a preto-e-branco e lembram  naturezas mortas com elementos assumidamente alegóricos numa forma de mensagem encriptada. Desta forma pretendem apelar às nossas recordações pessoais e colectivas. O corpo de fotografias exposto mantém o interesse do artista na relação espaço-tempo e nos elementos da questão da memória individual e colectiva.

O espaço expositivo era-me desconhecido e surpreendeu-me bastante. A galeria foi projectada pela equipa de arquitectos Aires Mateus e tem aquilo que se espera de um espaço deste género, linhas simples, depuradas de elementos ornamentais, mas com elementos geométricos capazes de criar uma estrutura virtual que suporte exposições em vários formatos.

“O Ofício de Viver” estará na galeria Carlos Carvalho até ao dia 29 de Maio.

 

Uma vez estacionado o carro, começo a percorrer a baixa lisboeta a pé sob um sol demasiado forte. Começo a subir  a colina do castelo aproveitando as sombras deixadas pela proximidade entre os edifícios.  Levo a máquina numa mão para o que der e vier, e na outra mão um mapa de como chegar ao Palácio do Marquês de Tancos. Uma vez na Rua da Costa do Castelo, inicio o seu varrimento em busca da porta 23. Falho-a. Quando passo pelo número 21 interrogo-me que raio de palácio deixa-se ignorar. Volto atrás e rapidamente encontro a porta 23. Aparentemente estou numa entrada de serviço. Ligo para o número escrito na porta. Rejeitam a chamada e apenas tenho de esperar uns segundos para entrar. Alguém (raramente pergunto o nome, o que normalmente torna-se arrependimento) abre-me a porta e faz-me entrar num edifício notoriamente abandonado há vários anos. Os azulejos nas paredes vão apresentando falhas e o chão em madeira range acomodando-se à novidade de alguém sobre ele caminhar. Passo por 2 ou 3 salas de enorme pé direito e de uma luz angustiante; viradas para o Tejo e o sol continuava impiedoso. Chegamos então à sala maior; grandes janelas e uma mesa no centro; em cima da mesa estava o que trouxe até ali: o mais recente trabalho da Catarina Botelho, “o outro nome das coisas”. Eis-me então, sentado numa mesa texturizada de frente para as enormes janelas com um Tejo de azul grave no campo de visão e com a possibilidade de desfolhar um livro de provas onde se observa uma parede fotografada em diferentes horas do dia e, portanto, com diferentes condições de iluminação. Um texto distribuído numa sala adiante informava que a artista, durante ano e meio fotografou a mesma parede usando sempre a mesma perspectiva. O resultado é um atlas de uma interioridade que acaba por responder a uma pergunta deixada no texto, “mas pergunto-me se não é o próprio trabalho que se está a desviar, a contornar, a encontrar um novo corpo”. Eu diria, que o trabalho, o corpo, prossegue na sua linha mestra e que se relaciona com a demonstração da intimidade da artista. A série “dias úteis” (já prometi escrever sobre esta série mas ainda sem resultados práticos) já havia iniciado o diálogo entre obra e espaço expositivo (decorreu num edifício Pombalino abandonado), e “o outro nome das coisas” promete trazer a continuação.



vistas de instalação “dias úteis”, 2008

Infelizmente, a apresentação decorreu apenas ontem. Espero sinceramente que hajam novas oportunidades (eventualmente outros edifícios?) para repetir esta “intervenção”.

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