domingo, fevereiro 07, 2010

Manderlay e o Agora depois disto tudo



Recentemente vi o filme de onde a imagem exibida foi retirada: Manderlay, dirigido por Lars von Trier, uma sequela de Dogville, onde os incómodos tabus dos EUA são exibidos com uma clareza que caminha levemente sob o gume de uma faca sem ferir, mas a amassar a consciência dos que vivem na ilusão de uma sociedade sóbria e livre nos EUA. A meu ver, Dogville foi um filme genial. Eu considero muito difícil fazer-se uma obra onde temáticas de cariz político e moralista são exibidas sem a desvirtuarem absolutamente, relegando o público para a esfera do mundano e comum. Niguém vê um filme de cariz artístico ou entretenimento para vivenciar o mundano do dia a dia. Dogville mostrou-o mais claro do que no dia a dia e, na minha opinião os EUA retratados em Dogville são os EUA de Norte a Sul, de Este a Oeste, onde a aparência moral e religiosa enegrecem os valores liberais e laicos do tempo da sua fundaçāo. Dogville foi um sucesso, mas como filme Manderlay falhou. Isto nāo é nenhuma novidade, Cannes e o público de von Trier já há muito enterraram o filme com comentários semelhantes.

No entanto, isso não quer dizer que a moral do filme não seja genial. Para mim é. Em miúdos, o filme retrata a falha numa tentativa de mudança na organização social de uma quinta no sul dos EUA onde existe escravatura, mesmo 70 anos depois da abolição em toda a União de Estados. Os escravos de origem Africana, depois de libertos, não conseguem libertar-se e abraçar a livre iniciativa para agir de modo a se alcançar uma vida melhor e a responsabilidade consciente de que os homens livres devem ter perante os seus actos ou perante a ausência dos mesmos. Sem os Senhores e as suas ordens que mantinham uma ordem, mesmo que na base da escravatura, as árvores, que protegem a terra de tempestades, são cortadas, as colheitas são cuidadas sem conhecimento técnico e mais um conjunto de acontecimentos ocorrem, semelhantes na ignorância dos agentes que os motivam. Não vi já esta História? Quantas vezes? Em consequência de más decisões, habituados a culpar os Senhores pelas amarguras da vida, incapazes de assumir os próprios erros, os recém libertos recusam a liberdade, entregam-se novamente à servidão e perseguem os seus libertadores em fúria.

Ao contrário de Dogville, Manderlay não é típico ou exclusivo dos EUA. Manderlay é a História do Portugal no pós 25 de Abril de 1974. Os libertadores acabaram por ser geralmente enchuvalhados, os Senhores, que fujiram para o Brasil, voltaram para compor a coisa e se continuar a culpar o Patrão pelas amarguras da vida que recusamos resolver individualmente com responsabilidade e o Salazar foi votado pela nata dos escravos como o maior entre os Lusos. No outro dia, a líder do grupo de escravos que é o PSD, Manuela Ferreira Leite, fez mesmo uma declaração de apoio saudosista aos Senhores que, com o chicote ou com a PIDE, exerciam a ordem com autoridade, resultando num Portugal onde as coisas lá iam andando sem estas poucas vergonhas de hoje. Como diz o escravo General Ramalho Eanes, Portugal ainda não é uma Democracia madura. Como filho de escravos e sem saber se me vou tornar num, congratulo-me de ainda haver democracia em Portugal, gosto dela, mesmo sabendo que os escravos libertos andam a fazer muito para a destruir. Espero que a Democracia se vá aguentando até à total extinção da escravatura, sem muito saber que fazer para isso acontecer.

Espero não fazer como a personagem principal de Manderlay, que acaba por frustrar todos os seus objectivos e fujir do pântano.

Sem comentários: