segunda-feira, dezembro 14, 2009

Sexo e Violência


Lembro-me de um tempo já bem distante em que tudo o que nos saía do corpo era sexo e violência. O resto era vivido a título individual: o sonho do amor, a amizade, o carinho, os ideais, as lutas, a liberdade, a respiração saudável fora do fétido provincianismo Português. Eu não queria desenvolver a minha interacção com o meu exterior somente através de sexo e violência, como se vivesse num mundo de constante hostilidade e à beira da catástrofe total, do Armageddon. Lembro-me de olhar para os outros, para as famílias felizes e os namorados felizes a fazerem actividades felizes. Lembro-me de tentar o oposto do que era, do que me saía do corpo feito diabo exorcizado.

Pagaste-me uma cerveja, já não nos víamos há muito, estavas mais gordo, falei-te do que não conseguia fazer e tu foste mestre. Disseste: "Queixas-te de fazer só sexo e violência quando tentas fazer coisas diferentes, ser algo diferente. Queres deixar de fazer só sexo e violência? De agora em diante faz só por fazer sexo e violência, nada mais. Vais ver que isso passa logo passado algum tempo."
Tinhas toda a razão, assim fiz e assim aconteceu.

Pensei em ti quando me separei do meu amor. Nada me apavora mais do que a ideia de a ver. Chegava ao ponto de a ver noutras mulheres, onde ela não se encontra, de a cheirar em todo lado. Durante muito tempo, quando isso acontecia fujia, escondia-me, queria-me vaporizar no éter. Mas ao pensar em ti tudo passou. Agora, olho fixamente para todas as que se parecem com ela, quedo-me imóvel sempre que o seu perfume me desassossega e não fujo. Se possível falo com a mulher que cheiro, com a mulher que olho, converso com ela, fico com o contacto dela. Agora tento ver o meu amor em todas as mulheres que cruzam o meu percurso. Cada vez menos o veja nelas. Cada vez mais me sinto próximo delas.
Obrigado pá!

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