terça-feira, dezembro 01, 2009

A desenvoltura dos 30

Quando acabei a última página d’O Aroma da Goiaba onde Plinio Apuleyo Mendoza desmonta biograficamente o seu amigo Gabriel Garcia Marques (e onde descobri a profunda urgência em ler Crónica da Morte Anunciada) estava em Praga e senti que ao invés da continuação do chão tinha um degrau e todo o meu corpo sentiu a vertigem instantânea do vazio.

Aproveitei o meu plano de comprar a Metamorfose de Kafka no idioma original (uma das grandes influências de Gabriel Garcia Marques – e ‘ops’ que se fecha este círculo) e na mesma livraria comprei um autor popular, Jan Neruda (e ‘ops’ lembra o Pablo da America Suada e sou como um corpo aos encontrões num vagão escuro), que se popularizou através de contos da sua Praga-mulher. O livro chama-se Prague Tales – from the Little Quarter (Malá Strana) e são estórias da segunda metade do século XIX vividas pelo common people.

Num dos contos, num apontamento presumivelmente biográfico, vem o seguinte parágrafo:
«Yesterday I turned thirty. I feel like a person. Only since yesterday do I feel like a real man: my blood flows to a strict rhythm, my every nerve is of steel, my each thought profound. It’s miracolous the way a man can mature overnight – no, not overnight, but in an instant. What power is there in the realization: Now you are thirty! Only thus can I truly enjoy myself, for I feel not only that I can do great things, but that I will! I look at everything with a lofty calm. And now, yes, now I will resume my diary and create a fresh portrait nof myself. I know that one day I will read the pages of my diary with pride. And I know that whoever reads these pages after my death will exclaim, “Now there was a man!”»

Em 2010 a maior parte dos meus amigos vai fazer 30 anos. Eu próprio também mas como sou um late crop sinto que os mando à minha frente para uma certa execução de pena. Mas a minha coragem forçada lá vai gritando: ide que sigo atrás, ide que já sinto os empurrões.


Malá Strana e castelo de Praga

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