sábado, novembro 21, 2009

Arte e Ciência – Excerto de Carlos M. Fernandes

(...) podemos conjecturar (e talvez sentir, se envolvidos em tais actividades) que os processos e impulsos criativos têm a mesma natureza, na arte e na ciência. Quando Jack London escreveu (...) Há um êxtase que assinala o auge da vida e, para além do qual a vida não pode subir. (...) Este êxtase, este esquecimento da vida, sobrevém no artista, arrebatado a si próprio num relâmpago de fogo; sobrevém no soldado, enlouquecido pela guerra que num campo perdido se recusa a render-se, e sobreveio para Buck, à cabeça da matilha, fazendo ressoar o velho grito do lobo, lutando por um alimento vivo e que fugia velozmente diante dele à luz da lua (...)* podia ter recorrido à figura do cientista, pois embora menos romantizada pela literatura ou cinema, a imagem do "cientista louco" é também uma ilustração do esquecimento da vida. No entanto, para aqueles que escutam acriticamente o discurso de alguns intelectuais, pode parecer que a arte e a ciência dependem de processos mentais muito diferentes, e por isso terão necessariamente de estar de costas voltadas. Não é verdade, mas o facto é que, embora muitas vezes os objectos artísticos contemporâneos utilizem os resultados dos mais recentes desenvolvimentos científicos e tecnológicos, a postura é, em geral, de cisma.
(...)

Carlos M. Fernandes, in Consiliência (Inside [Arte e Ciência])

*Jack London, The Call of the Wild, (New York: Macmillan, 1903). Versão portuguesa: O Apelo da Floresta, (Lisboa: Relógio d´Água, 2009).

Roubado descaradamente daqui.

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