quinta-feira, outubro 29, 2009

Francis Bacon


Se fosse vivo, Francis Bacon teria feito ontem 100 anos. Há uns dias vi o programa neste link. Tenho reflectido muito sobre Bacon e já aqui me referi algumas vezes ao valor artístico e social dos retratos: aqui, aqui e aqui. No programa indicado, refere-se a obra de Bacon como o continuar do estilhaçamento do Eu iniciado pelo Modernismo e vale a pena ver o programa para se perceber isso.
Na minha subjectividade, Bacon fascina-me porque me identifico nos seus auto-retratos. Sempre me senti atraído pela face humana e pela sua potencialidade em exprimir um significado através dos movimentos dos seus músculos. Desde muito novo que me olho ao espelho e testo o que consigo fazer com a minha cara. Mais tarde, ao fazer teatro, muitas vezes me filmava a fazer cenas para ver como as fazia e o espelho sempre foi o meu companheiro de auto-manipulação facial.
A minha cara tem assimetrias, defeitos e características vincadas. Independentemente da minha idade, o excesso de tempo a olhar-me ao espelho sempre me levou a mentalmente exagerar os meus traços e imaginar a minha face completamente transfigurada.
Como nasci numa família onde se advoga que as crianças devem estudar e ter boas notas e o resto é conversa, nunca tive a oportunidade de aprender música e pintura. Hoje considero essas as minhas maiores falhas em termos de literacia e sempre sentirei falta enquanto humano vivo em não saber fazer nada disso.
Traumas à parte, durante as minhas longas sessões de voyeurismo da minha própria cara, sempre me pintei desfigurado como uma consequência de um dinamismo facial imposto pela força do meu olhar. Mesmo a frase mais sublime se banaliza quando dita demasiadas vezes. Quando me deparei com os auto-retratos de Francis Bacon, senti o satisfazer do meu desejo de voyeur, vi-me nele. Mas acima de tudo, no geral, fez-me questionar sobre os efeitos de o Homem se olhar tanto ao espelho nos dias que correm. Botox, anorexia, consumismo, photoshop, a cultura de celebridades a invadir todas as esferas públicas com muita parra e pouca uva? Todos somos feitos de carne, sangue, secreções e todas as coisas que uma visão Barbieana do Homem tende a apagar da imagem humana promovida pelas sociedades modernas.
Percebo muito pouco de arte e gostava de ler mais sobre os diversos movimentos e as suas relações com os vários factores sociais e geopolíticos. Vou fazendo o possível. Mesmo assim, gostava de fazer notar o aniversário de um dos maiores artistas de todos os tempos. Parabéns!

2 comentários:

Nuno Vieira Matos disse...

Lembro-me perfeitamente da minha primeira experiência com a assimetria do rosto: foi quando vi a minha mãe reflectida no espelho e senti que o mundo estava mal. Tinha menos de 5 anos de idade e achava aquilo uma injustiça (do not ask me why).

Magoi disse...

ainda vais a tempo de aprender muito mais :)