terça-feira, outubro 27, 2009

Da meritocracia

Comecemos pelo fim: não acredito no mérito. Mais correctamente, não aceito a meritocracia como sistema social.

Agora que já devo ter captado a atenção da maior parte, regresso ao início. Existem provas que julgo bastante fortes para aceitar como teoria evolutiva aquela que coloca o gene como unidade fundamental da sobrevivência (gene aqui representa uma unidade transcrita como um todo). A consequência desta afirmação é a de que todas as formas de ‘vida’, dos organismos unicelulares aos muito complexos multicelulares (que de forma interessante mimetizam o tipo de organização de uma única célula – lá voltarei um dia), são então encaradas como veículos de sobrevivência, isto é, invólucros que são programados pelo seu genótipo (conjunto de genes) a comportarem-se de uma determinada forma (em comportamento, como forma de simplificação, incluo toda a acção voluntária e involuntária de interacção com o meio) que, num determinado contexto, irá permitir a sobrevivência e a multiplicação. Toda esta teoria apresenta-se num livro de Richard Dawkins denominado “The Selfish Gene” – não só explica melhor como ainda aprofunda a teoria para demonstrar como o altruísmo é possível num mundo de genes egoístas. Como tal não me prolongarei mais sobre este assunto.

Antes de tudo o homem é um animal, organismo multicelular de elevada complexidade e que apresenta uma característica única no mundo animal, desenvolvida como modo de adaptação ao meio garantindo sobrevivência e replicação: a capacidade de criar um modelo da sua própria realidade, ou por outras palavras, inteligência/consciência. Do ponto de vista meramente evolutivo, a consciência é apenas mais uma ferramenta num conjunto de ferramentas possíveis na corrida ao armamento evolutivo com o último fim de garantir a replicação dos genes e assim a sobrevivência destes (por isso um gene tem um tempo de ‘existência’ milhares de vezes superior ao de qualquer animal). A consciência é assim um fenótipo que resulta da transcrição de um determinado conjunto de genes a priori, donde resulta o seu primeiro condicionalismo (recuso qualquer leitura transcendental desta nossa capacidade).

Num outro plano, a posteriori do condicionamento genético (por favor, não confundir condicionamento com determinismo), o homem aparece como um animal social (o que considero ser, no fundo, o mesmo que Aristóteles referia ao considerar o homem como um animal político). Várias experiências, no contexto do behaviorismo experimental mas não só, nas décadas de 40 e 50, demonstraram (por vezes de forma cruel) que o condicionamento continua através do ‘meio’ social com consequências no desenvolvimento físico e cognitivo. Por exemplo, uma experiência (agradece-se a quem encontrar a referência) que consistia em dois grupos de bebés  sujeitos a duas formas díspares de maternidade. Num dos grupos os infantes tinham mães com níveis normais de interacção (afecto). No outro grupo, um conjunto de enfermeiras num esquema rotativo e apenas com um nível de interacção mínimo; mães anónimas robotizadas. Enquanto que os bebés do primeiro grupo apresentaram níveis de desenvolvimento normais (distribuição normal, etc.) os bebés do segundo grupo apresentavam atrofias emocionais seríssimas com consequências em alguns casos fatais. Embora estes casos sejam radicalmente diferentes entre si há todo um mundo entre eles para o nosso multi-dimensionalismo contínuo poder explorar.

Então, o que é o livre arbítrio? Poderá ser o espaço não ocupado pelos dois condicionalismos aqui apresentados: genético e social (social não será a melhor palavra mas para efeitos de labelling serve perfeitamente). A questão regressa na forma de: esse espaço existe ou o livre arbítrio é aquilo a que designamos o resultado de uma equação de parâmetros intermináveis que nos tutelam a priori (genético) e durante (social)? Embora me sinta inclinado para a segunda alternativa, não iria acrescentar nada ao que se seguee como tal não aprofundarei.

A ideologia dominante (ditada pela classe dominante como escreve Marx) apresenta-nos a meritocracia como um sistema justo: aquele que mais e melhor trabalha terá mais e melhor. Usando o esquema de ‘Status Anxiety’ trazido por Alain de Botton (já agora ver o filme é uma boa recomendação), aquele que mais e melhor trabalha terá mais estatuto perante o mundo (mais do que dinheiro, o estatuto aparece como a moeda de troca social). Eu coloco a pergunta ao contrário: o que é necessário verificar para que a meritocracia seja um sistema justo? A resposta aparece-me como óbvia: o homem deverá ser senhor da sua sorte (não resisto a deixar sair estes clichés de livro de gestão), ou seja, o homem é responsável por todos os seus comportamentos. Se é um vencedor (tem sucesso, i.e., tem estatuto, i.e., tem mérito) foi porque trabalhou para tal. Se é um falhado (pagando isso com a vergonha) é porque não se esforçou o suficiente.

(Nota: nem sequer vou entrar nos desvios que assistismos todos os dias em pleno seio do sistema meritocrático, apelidado por Thomas Jefferson como aristocracia do talento)

Se considerarmos verdadeiros os condicionalismos apresentados antes (objectivos e não artigos de opinião), então o indivíduo não é totalmente responsável pelos seus comportamentos (de novo o quanto não é tem pouca relevância a não ser que fosse pouco significativo – que não é). Conclusão desta afirmação é que a meritocracia não pode ser vista como um sistema justo. Os sistemas de Segurança Social (Welfare) mais não fazem que actuar como paliativos para a dispersão assimétrica de riqueza que premeia potenciais (potencial para pensamento lógico-dedutivo, potencial para aprendizagem, potencial para – a tão na moda – inteligência emocional, etc.) resultantes em grande parte de factores externos e não controláveis pelo indivíduo. Este facto faz-me à partida rejeitar o liberalismo económico assente no ‘egoísmo ético’ ou outras formas individualistas de política (por isso sou avesso à competição de qualquer forma como muitos dos meus amigos sabem e torcem o nariz). O colectivismo (os pormenores  e as alternativas de colectivismo deixo a quem sabe), pela força dos números aparece como a forma mais adequada de atenuar diferenças individuais actuando como uma média rolante. O liberalismo social aparece-me igualmente como alternativa credível aceitando as diferenças individuais  desde que não coloquem em causa a liberdade dos pares.

Não é possível ignorar a nossa biologia e as suas consequências sem incorrer na injustiça social.

Este texto, na gaveta mental à demasiado tempo, é dedicado ao meu amigo J. de quem tenho uma grande estima e que por esta altura já percebeu o enorme tiro no pé que deu a si próprio ao emprestar-me aquele DVD.

2 comentários:

Luna disse...

Onde digo o mesmo de forma muito muito muito simplificada. (vocabulário pessoal: competitividade = lei do mais forte)

http://horas-perdidas.blogspot.com/2007/04/porque-sou-de-esquerda-verso-muito.html

Nuno Vieira Matos disse...

Ainda antes do problema do "o que fazer aos restos de gente triturados na competição do dia a dia" há o problema fundamental da injustiça intrínseca da competição (e portanto mérito).