terça-feira, agosto 18, 2009

Bernardo

Bernardo, quando era novo, gostava de jogar ao berlinde, de jogar à defesa nos jogos de futebol, disputados no descampado junto à escola, e dos desenhos animados das 5.

Bernardo saiu da Faculdade com todo um mundo a povoar-lhe a cabeça e o trago amargo de derrota pela vitória  de ser um senhor doutor. De repente o objectivo já não era a licenciatura mas o autocarro já não podia esperar mais.

Bernardo levantou-se grunhindo impropérios e pontapeava as paredes à revelia da vontade. Quando olhava para aquela criança, principalmente com o sono a toldar-lhe o juízo, perguntava-se como tinha chegado ali? – Porra, já sou pai? – mas logo a seguir o cheiro a fezes de leite abanou-lhe os sentidos e o dever prosseguiu na calma de um refugo.

Bernardo, naquele dia acordou entusiasmado. Levou todo o dia a despedir-se daqueles companheiros que partilharam salas, open-spaces, reuniões e cafés de máquina. Despediu-se ainda das senhoras da limpeza de quem, secretamente, tinha pena. Caras novas já eram muitas, algumas da idade do filho já a acabar a faculdade. O filho já não ligava muito lá para casa e aquelas caras novas também tinham o desdém de lábios a que Bernardo já se habituara. Quando Bernardo chegou a casa chorou agarrado aos joelhos.

Bernardo tem coração fraco. Pensa consigo – estou-me cagando! – Enquanto isso aturava o filho nas visitas da tarde, entre as 14 e as 19 que as enfermeiras faziam daquilo o seu trono. Sente vergonha de pensar que a mulher do filho é jeitosa mas não consegue parar de olhar. Dói-lhe a vida. Os tubos enviados goela abaixo não ajudam e envergonham. A mulher já estava de luto não fossem pensar que era folgada como a nora. De facto, a nora fodia com um e outro mas a sogra não o sabia; adivinhava pelo brilho nos olhos que isto de ser mulher tem muita coisa, muito sofrimento e poucas alegrias. O aborrecimento era geral.

Bernardo morreu nessa noite engasgado de si.

1 comentário:

Ines Lima Azevedo disse...

Bem, adoro esta história. Está forte.