quinta-feira, julho 30, 2009

Raquel

Raquel sonhava com o redentor daquela vida morna açoitada de vez em quando por um olhar trocado com o rapaz indiferenciado que partilha a carruagem do Metro. O rapaz indiferenciado é um dos conceitos mais democráticos que por aí vai existindo. Dotado de uma não beleza (na medida que não é particularmente bonito nem grosseiramente feio), com proporções balizadas pelos primeiro e terceiro percentis e roupagem mediana. Claro que , para Raquel, este rapaz indiferenciado, tão normalizado que nunca poderá aspirar ao plural, funciona apenas como um espelho interactivo. Raquel calibra-se com ele; mede o impacto da sua figura cuidada durante os possíveis 10 minutos que dispõe de manhã cedo para o efeito, no rapaz indiferenciado. A sorte de Raquel? O rapaz indiferenciado é curioso; por vezes, a mera observação dos pormenores calca o desejo sexual, permitindo ao rapaz levantar-se na próxima estação sem a necessidade do volume solidário de uma mão no bolso. Contudo, Raquel não ousa trajar mais que uns corsários ou um decote que apenas aflora o início do vale que afunila tantos dos nossos pensamentos. Para Raquel, os olhos são os mais importantes; por isso pinta-os com um estojo que a tia lhe ofereceu marcando uma cumplicidade de virgens secas sempre prontas a desdenhar nas ninfetas que, todos os dias, pululam os comerciais e as novelas do horário nobre. Raquel segue a dieta que a revista apregoa nessa semana; Raquel está sempre atenta às cores que as colegas de trabalho usam; Raquel quer estar na moda para não sobressair, apenas o suficiente para não comentarem o seu mau-gosto. De resto, os seus olhos, pintados a preceito com o estojo de titi, irão ser o seu chamariz do beija-flor. Raquel não gosta de aves de rapina.

Raquel conheceu três redentores e, em todos eles, teve as certezas de um entusiasmo pueril. Ostentou perante titi o desfloramento provocado pelo segundo redentor e invocou o seu ciúme invejoso. Titi amargou e secou ainda mais; morreu enrugada. O terceiro redentor batia-lhe porque tinha de ser; o terceiro redentor fodia-a porque tinha de ser; Raquel apanhava estoicamente e estoicamente era penetrada por um pénis insuflado de álcool e escárnio. Raquel assumia assim uma missão confiada por um rol de gerações sentadas à lareira desfiando rosários. Raquel aprendeu que os redentores também mentem. O segundo era casado e o primeiro, afinal, não a amava. O terceiro encontrou o destino debaixo de um camião e ainda hoje Raquel lembra de quanto sente sua falta. Raquel já não procura o olhar do rapaz indiferenciado. Raquel engordou e agora procura o olhar reprovador das fêmeas atiçadas que, com ela, partilham a carruagem do metro. Deixou de acreditar em redentores e nunca mais teve a sensação estranha de um rubor que terminava nas faces mas que se iniciava nas sombras de uma vergonha. Para o fim já rezava à sua titi não por remorso mas porque lhe sentia a falta. Um dia, no meio da sua rotina diária, Raquel faz um desvio, volta à casa de banho, abre o armário que ladeava o espelho onde todos os dias conferia que seus olhos ficavam impecavelmente pintados; retira os anti-depressivos legados pelo primeiro redentor. Com normalidade e sentido de missão, Raquel abre a sua garganta a um jorro de pequenos discos que lhe vão criando uma secura quase paralisante na garganta. Por fim, já com o amargor daqueles químicos dissolvidos na saliva insuficiente, Raquel senta-se na cama e pensa que hoje não irá trabalhar.

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