domingo, fevereiro 08, 2009

A mulher no Camera Work

Alfred Stieglitz, na sua fama de prepotente e arrogante, não deixou de mostrar sarcasmo na altura de dar nome à revista que viria a dominar a divulgação da fotografia avant-gard nos primeiros anos do século XX: Camera Work. A primeira edição é de 1903 e irá terminar em 1917 num total de 50 números. Embora, na sua maioria, Alfred Stieglitz tenha dado a conhecer o movimento pictorialista, usa igualmente a Camera Work para divulgar arte Europeia e, nos dois últimos números, o seu testamento artístico: a Straight Photography. A passagem de uma corrente para a outra vem não só modificar o objecto fotográfico como vem pôr um fim na crescente importância da técnica sobre a visão fotográfica. Talvez um resultado natural do condicionamento do objecto fotográfico mimetizando o condicionamento, por simulação da pintura, do fazer fotografia. Em adição ou em alternativa, a forte manipulação a que as impressões estavam sujeitas facilitavam a troca de prioridades.

O pictorialismo foge da objectividade tentando capturar impressões, levando a fotografia para o campo da subjectividade. Paradoxo aparente já que era o meio tornado ideal para capturar a realidade, os momentos tal e qual vividos num formato de reportagem. Se a fotografia ambicionasse entrar no conjunto de técnicas artísticas terá de retratar para lá da realidade. O forte grão aliado a um baixo contraste, uma certa ideia de desfocagem, tal seria a representação de um sonho ou de um pensamento. Não há lugar à nitidez, ao detalhe. O subjectivo é difuso, nem que seja por oposição ao real documentado.

Não posso deixar de puxar para aqui o retrato feminino que aparece em Camera Work. Curiosamente, Camera Work aparece numa altura em que era socialmente aceite o nú fotográfico e excluído todo o nú pintado ou esculpido. De facto, quando Alfred Stieglitz começa a incorporar a arte de vanguarda europeia nas páginas de Camera Work, os nús de Rodin e Matisse vão provocar uma diminuição drástica do número de subrescritores. 

Gertrude Kasebier, "Portrait (Miss N.)", 1903 (In Camera Work #1)

Gertrude Kasebier ficou conhecida pelos seus retratos em pose descontraída sob luz natural. Frequentemente a modelo enchia quase por completo todo o enquadramento.

Robert Demachy, "Severity", 1904 (In Camera Work #5)

O pictorialista francês Robert Demachy oferece impressões fortemente manipuladas a fazer lembrar pintura ou, como esta sua alegoria à severidade, desenhos a carvão.

René le Bègue, "Study", 1906 (In Camera Work #17)

Os nús de René le Bègue quase que desenhados em tela (quase na imoralidade?).

Anne W. Brigman, "Soul of the Blasted Pine", 1909 (In Camera Work #25)

O primitivismo quase pagão de Anne W. Brigman como contra-cultura pela libertação feminina, quer a nível pessoal como a nível artístico. Nesta fotografia, como em muitas outras, Anne é a sua própria modelo.
Clarence H. White and Alfred Stieglitz, "Torso", 1909 (In Camera Work #27)
Clarence H. White que viria a se tornar o líder do movimento pictorialista após omissão de Alfred Stieglitz.

Julia Margaret Cameron, "Ellen Terry at Age Sixteen", 1913 (In Camera Work #41)

Ellen Terry, a futura actriz Shakesperiana mais conceituada do Reino Unido, a posar para Julia Margaret Cameron, pouco antes de se casar. A fotografia talvez revele um pouco do futuro já que o casamento viria a provar-se desastroso para Ellen. 


Pena que, em nenhum dos 50 números da revista, nos apareça um exemplo de Straight Photography para um retrato feminino nos cânones da beleza vigente. Mas por outro lado, o apelo à realidade objectiva e o contexto histórico apenas davam espaço à crueza da rua, do passeio, do trauseunte, da pobreza, da urbe e do seu caos e das diagonais vibrantes da cidade.


Sem comentários: