quarta-feira, dezembro 17, 2008

Ela Beijou-me

Nunca fui um homem de pagar por sexo. Não me apetece fazer agora auto-análise sobre isso, mas parece-me que tal seja consequência do meu horror ao estado degradante em que sempre vi as prostitutas de beira da estrada. No entanto, sempre tive um grande fascínio pela organização decadentemente glamorosa e erótica à volta daquela noite onde há prostituição.

Desde que cheguei a Paris tornei-me num solitário, um trabalhador dedicado, respeitado e apreciado pelas chefias que nada tem para fazer quando chega a casa que não seja uma actividade solitária. Os portugueses daqui são o meu povo no jogos do Benfica ou da Selecção, mas no resto, raramente me sinto bem com eles e sinto que eles não sentem especial desejo em estar comigo, o que me demove facilmente de ir ao Luar da Noite beber um copo depois do trabalho. Eu percebo, esta gente veio para aqui nos anos 40-50-60, eu tenho idade para ser filho deles e os filhos deles nada têm a ver comigo, olhando para Portugal como o que aquilo era antes do 25 de Abril. Com os Franceses do trabalho costumo ir beber uns copos, jogar à bola, ir às discotecas meter-me com as Francesas, mas tudo muito formal e masculinamente profissional. Com as Francesas nada se passa, o meu sotaque marroquino estraga qualquer romance e somente consigo ter conversas sobre férias em Portugal ou costumes e comidas portuguesas.

Por isso, por causa de um aflitivo estado de solidão, comecei a vaguear horas a fio por Paris nos tempos livres, mais precisamente durante a noite, visto eu trabalhar também ao Sábado e ao Domingo. Rapidamente me apaixonei pela cidade mulher que é Paris, uma cidade quente, onde em todas as ruas , em todos os parques, em todas as pontes me imagino a beijar uma mulher. Paris foi durante muito tempo a minha mulher. Mulher que traía muitas vezes antes de a trair definitivamente até aos dias de hoje, com mulheres que aceitavam o meu convite para sexo depois de conversas curtas no metro ou num bar em Pigale. Nunca paguei, nunca. Também nunca as levei para casa, isso seria trair Paris, trair a minha mulher.

Isto foi assim durante algum tempo até ter visto a Monica Bellucci num bar em Pigale a prostituir-se. Fiquei doido, mulheres assim não se vêem na vida real, só nos filmes ou nas revistas. Fiquei muito impressionado. Desejei beijar aquela mulher, levá-la para a minha cama para a tratar com ela merece, como uma deusa do sexo, do amor. Ia ao bar todas as noites, mas sempre fazendo por passar despercebido aos olhos da Monica. Via clientes, olhava para ela e sabia que queria viver com ela para sempre, queria que ela fosse a minha mulher, queria ser o seu homem, ter filhos e ser feliz para sempre com ela. Inicialmente tratei esse desejo como se tratam as impossibilidades, pensei ser possível encarar isto como um sonho, muitas vezes saí de casa decidido a saciar este desejo com sexo pago, ia para a cama com ela e pronto, isto passava, mas nunca me atrevi consporcar este meu sonho tão caro com algo tão masturbatório. Eu amava esta mulher, muito.


Mas um dia, meses depois de tortura e desejo, fui ao bar em Pigale uma noite, sentei-me ao lado dela e disse-lhe:
- Acabei de ganhar o Euromilhões e quero-te pagar uma mensalidade de 100000 euros para viveres comigo até eu ficar sem dinheiro. Depois vais-te embora.
Ela aceitou e, mais tarde, entre outras "coisas", acabou por me beijar assim.

Este post foi inspirado no seguinte filme. Mau filme, mas grande mulher.

1 comentário:

Anónimo disse...

oh caro , tu nao sabes como teu pequeno texto me comoveu
estou a ca em paris por apenas alguns dias a trabalhom e senti muitas das sensações que descreves em teu blog.
parabéns pela veia!
de um pobre Brasileiro perdido em Paris, nossa esposa!!!!!!!!!!!1