quinta-feira, novembro 22, 2007

Foi à frente da Sé da Guarda

O carro do teu pai já não funcionava há algum tempo, eu sabia que podia haver problema. Por isso propus ir de comboio para visitar os meus pais e o meu tio Manel ao Hospital e deixar-te o carro para as tuas necessidades. Disseste que não, eu voltava mais rapidamente com o carro e seriam menores as saudades. Eu insisti, mas as tuas vontades sempre foram inquestionáveis e extremamente insusceptíveis a qualquer mudança. Se calhar porque passaste o tempo todo até saíres de casa dos teus pais sem nunca te terem feito muitas vontades. Como de costume obedeci e voltei à terra Natal a ouvir o Debate Mensal da Assembleia da República contra o Durão Barroso. Coitado do Ferro Rodrigues, do Partido Ecologista Os Verdes, foram todos enchuvalhados pelo tom arrogante do Cherne Guerreiro.
Cheguei à Guarda para jantar. Eu quando vou para cima levo sempre uma ansiedade contida no peito, em risco de explosão. Eu adoro voltar a casa, mas não gosto de ficar muito tempo porque todos os meus amigos encontram-se fora ou com vidas atarefadas sem vagar para me enfiarem nelas com um jantar ou uns copos. Assim que cheguei, telefonei-te para dar beijinhos e falar de umas aves de rapina lindíssimas que econtrei na zona de Coimbra, eu acho que eram milhafres mas não estava certo. Lembro-me que adoravas as histórias que muitas vezes te contava ao deitar, telefonei-te também para contar que durante o caminho tinha inventado uma história sobre milhafres para te contar no Domingo antes de adormecermos. Sempre me custava estar longe de ti, não muito porque sentiria violentamente a tua falta, afinal eram somente dois dias, mas porque sempre que me ausentava custava-te sempre a encarar-me quando regressava a ti, nunca percebi porquê, perguntei-te umas quantas vezes, mas tu usaste sempre uma maneira de me fazer sentir mal por perguntar.
No Sábado fui passear sozinho pela parte velha da cidade. O dia era de Sol e muito convidativo a desejar estar com quem se ama. Umas horas antes, pela manhã tinha-te ligado e soube que estavas ter problemas em andar com o carro do teu pai, não pegava. Telefonaste ao teu amigo Ricardo para te ajudar e ele nada conseguiu fazer, acasbaste por ligar ao Seguro, eles trataram do assunto. Sugeriram que devias andar algum tempo com o carro a mais de 100 quilómetros/hora. Depois liguei-te antes do almoço para te falar da minha Avó e dos dióspiros que ela queria que eu te levasse e despachaste-me para não incomodar a tua condução. Naquele dia deslumbrante de sol, quando estava à frente da Sé da Guarda resolvi ligar-te para declarar todo o amor que tinha por ti. O dia assim o obrigava.
Atendeste o telefone e estavas a almoçar com o Ricardo em Sesimbra, o passeio estava a ser bonito. O Ricardo tinha ido ao quarto de banho e tu disseste-me com um tom muito preocupado, grave e sério que o Ricardo achava que nós nos telefonávamos muito. Eu respondi que não via problema nenhum nisso, temos coisas para dizer um ao outro, somos amantes, queremos dizer que nos amamos. Tu disseste com tom sofrido "Oh Xandeee, tu sabes que não é isso". "Então é o quê Margarida?" perguntei-te eu. Mais uma vez tu usaste a tua maneira mágica de me fazer sentir mal por te perguntar. E tudo acabou com a ilusão de que tudo era claro.
Cenas como estas repetiram-se aos milhares. A tua insatisfação com coisas que me pareciam banais e sem problema. Na verdade, isto sempre existiu desde o início da nossa relação. Ou porque o Nuno te tinha dito que passávamos muito tempo juntos, ou porque a Maria te dizia que eu era mais baixo e tinha um ar mais jovem do que tu, ou por outras mais questiúnculas onde eu não via problema, nem tu te dispunhas a me elocidar com simplicidade e clareza. Mais recentemente, um ano antes de acabarmos, no dia em que conheci o teu amigo Mexicano, ele disse-me que o mais provável era eu e tu acabarmos e que ele sabia o que isso era porque já tinha sido casado, estava disposto a dar-me todo o apoio que eu precisasse. Eu fiquei estupefacto, o nosso reencontro depois de teres ido trabalhar fora estava a ser fantástico, eu estava a adorar ser levado por ti a locais novos, a ser apresentado a pessoas novas e estava a viver o momento mais surreal da minha vida como teu amante. Contrariamente ao que acontecia no passado, não te fui aborrecer com estas questão, não queria estragar os dias de beijos e sonho. Não queria mais daqueles momentos que me faziam sentir culpado por questionar coisas que te parecem claras e indiscutíveis, não queria tocar nos teus tabus. Na verdade, o Leonardo tinha razão, soube depois de teres acabado tudo que até havia um Inglês atrás de ti. Nunca percebi bem o que se passou. Se calhar os teus amigos antes de me conhecerem já te queriam a estar com outra pessoa, ou simplesmente sozinha e descomprometida como eles. Sei é que nunca fui bem acolhido pelos teus amigos do teu novo trabalho, da tua nova vida. Sei é que a partir desse momento, os momentos em que questionavas tudo entre a gente aumentaram exponencialmente. Houve até quem lançou o boato que eu tinha problemas mentais. Estava tudo traçado, eu sentindo-me cada vez mais diminuído comecei a irritar-me mais e a discutir mais contigo. Mas por todos os meus erros já te pedi desculpas na minha última carta e não há um único dia em que não me arrependa do mal que proporcionei à nossa relação.
Quando tudo acabou cheguei a sentir-me aliviado por nunca mair ter de viver aqueles momentos agoniantes em que não sei porque tens problemas com algo e em que faça o que fizer acabo sempre por te magoar, para mal dos meus pecados. Mas recentemente em Vigo, conheci uma retrovira Americana professora de Yoga que ao quarto dia de queca fez-me algo semelhate, mas muito pior, se as nossas situações eram estranhas, aquilo foi o fim do mundo em termos de loucura. Acabei tudo ali e elevei-te a Santa. Por isso, fiquei até hoje a matutar na vida e decidi mudar-me primeiro a mim antes de voltar para a frente. Estou certo que tenho de ser outra pessoa para me relacionar com mulheres. Se pelo menos eu fosse gay, mas não, tenho mesmo de ser outra pessoa.
Por isso meu doce, velho e eterno amor, antes do ponto final deste texto quero enterrar isto tudo para passar para a frente, depois deste ponto final eu sou outra pessoa e estas cartas acabaram, as magoas, os arrependimentos, a tristeza, tudo isso acaba aqui.

2 comentários:

Nuno disse...

desculpa, mas é ilusório (talvez confortável) pensar que se pode mudar. Estás errado. Não podes ser outra pessoa para te relacionares com mulheres. Só a dor e auto-comiseração explicam isso. Um amigo meu explicou-me isso em budapeste.

Samuel disse...

Isso é mentira Alexandre.
Todas as cartas que dizem ser a última nunca o são. São apenas mais uma forma de tocar no assunto, outra vez.
Um abraço.