segunda-feira, novembro 12, 2007

"Dar um salto para a minha doce loucura"


Daqui para ali existe um limbo, sempre, nem que seja de uns segundos, o limbo existe sempre.

Esta frase do album de Ana Brandão e Carlos Bica encontra-se fora daqui, encontra-se numa viagem solitária.

Acordam-me com uma língua da Europa de Leste, acho ser a terceira vez esta noite. Automaticamente retiro o passaporte do bolso e mostro-o ao portador da lanterna. Ontem estive duas horas a falar com uma senhora Croata de olhos negros e vestida de preto com um lenço à cabeça sem falarmos a mesma língua. Fiquei a saber que tinha um filho a trabalhar num Cruzeiro de luxo que tinha recentemente passado em Lisboa. Tinha recebido um postal onde falava de uma rua que subia com muitos bares. Ela ficou a saber que me tinha divorciado, desistido do emprego, vendido tudo o que tinha e ganhava agora a vida a cantar Bob Dylan nos metros de cidades europeias. Para quem falava por gestos, acho ter sido uma conversa produtiva para duas horas.

Em Faro eu era um homem igual aos outros, olhava nos olhos das pessoas e via gente igual a mim. O meu olhar era recebido, falava com pessoas com o meu olhar. Trocas de olhar podem encher o nosso dia de palavras, mesmo quando nenhum som sai das nossas bocas.

Eu tinha de sair de Portugal. Todas as músicas da rádio falam de amor e o silêncio dava asas à minha voz para me torturar, macerar a culpa de ter sido um mau amante. Era-me impossível trabalhar, dormir, sair com amigos, estar com a família. Um dia fui a Huelva representar a seguradora em defesa de um homem segurado por nós que se encontrava em estado grave no hospital depois de um acidente de trabalho. Foi quando adormeci na esplana, debaixo do Sol mulher do Sul de Espanha, com uma cerveja nas mãos, que eu percebi que precisava de ouvir uma língua diferente daquela que eu usei para dizer amo-te à minha ex-mulher. Precisava de sair de tudo, precisava de ser uma outra pessoa. Mas que pessoa posso ser aos 35 anos?

Essa é a resposta que tenho andado a procurar por essa Europa fora. Quando se é pedinte entra-se noutro mundo. Somente os jovens de mala às costas e os sem abrigo falam comigo, esses agora são os habitantes do meu mundo. Os primeiros perguntam-me se vendo droga, os segundos se tenho vinho comigo. Os habitantes do meu mundo vivem em limbos, uns eternos outros de viagem por uns dias ou semanas. Quando olho para as pessoas que um dia fui, atarefadas na rua a fazer o que eu um dia também fiz com todo o sentido do mundo, não recebo um olhar em troca, quanto muito um sorriso nervoso e embaraçado a culminar num acelerar do passo de marcha para bem longe de mim.

Uma vez, há uns anos atrás, encontrei um amigo do Liceu na beira da estrada a pedir boleia. Levei-o a Tavira, ele andava a fazer Teatro de Rua de Junho a Setembro pelas cidades do Algarve. Falámos do que é ser-se actor e acabámos por falar sobre o que é ser-se uma pessoa, o que é ser quem somos. Eu sou um preconceito, essa foi a conclusão da conversa, todo o mundo, todos os conceitos são preconceitos. Foi isso, depois nunca mais o vi, ficou ao lado da bomba da BP e eu voltei para Faro, ia essa noite jantar com a minha ex-mulher e estava atrasado para o encontro.

1 comentário:

Anónimo disse...

Lindo.
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