terça-feira, outubro 09, 2007

"Algo me diz que..."


No outro dia o meu amigo Pops dizia-me que ele era mesmo bom a programar e a organizar programas, esse é o seu talento natural. Ouvir a expressão "eu sou mesmo bom a..." despoletou automaticamente em mim um exame de consciência sobre as coisas em que eu sou mesmo bom. Esse exame acabou em chumbo vergonhoso com pontos negativos e tudo, parecia-me nada existir no qual eu seja mesmo bom. Hoje lembrei-me que isso não é bem assim. Fui como aqueles alunos que se lembram das respostas a uma pergunta num exame bem depois da hora de entrega, não havendo qualquer efeito na nota final, mesmo sabendo, fica para sempre nos papeis de registo de notas como não sabendo. Para mal dos meus pecados, esse tipo de desenlaces em exames é a história da minha vida. Pois a minha lembrança retardada veio triste como todas as outras até ao momento.
Uma noite estava eu em Drave com uns amigos. O Miguel meditava numa tentativa de concentrar em si as energias da terra para depois as usar no engate a gajas, eu pegava num longo pau durante um curto silêncio que cortava uma conversa sobre Sepúlveda com o João. Levantei o pau e disse "Algo me diz que esta noite ainda é uma criança", espetando vigorosamente de seguida o pau no chão. Aquele chão tremeu assim que sentiu o meu "Algo me diz que" associado ao penetrar do pau. Logo depois de fecundar levemente a terra, começou a ouvir-se um ronco cavernoso e bem fundo a aproximar-se da gente solo acima. O medo pediu-me cobardemente que tocasse naquele chão. O tremor passou e dissipou-se pela superfície daquela aldeia, da minha crusta terrestre. Nós os três abraçámo-nos e a minha noite não teve mais trevas. Até o filho da puta do escuteiro que dormia na sua tenda acordou com aquela luz. Fica-se aqui a saber, fora do exame chumbado, aquilo em que eu sou mesmo bom, nos meus "Algo me diz que...", eles fazem a terra tremer, isso eu faço mesmo bem, embora quero informar antes de mais conversas que nada tive a ver com o Tsunami que vitimou a Índia, o Sri Lanka , a Tailândia e a Indonésia.
Recentemente, uma mulher acabou uma relação amorosa comigo, não foi a primeira e "algo me diz que" não vai ser a última. Com este meu jeitinho em ver castelos de granito onde se encontram castelos de cartas. Quando se acaba uma relação sem iniciativa própria é como chumbar no exame, falhar na entrevista de emprego. Para além de me lembrar das respostas correctas bem depois do chumbo, eu escrevo com uma letra péssima, tanto os exames escritos como as relações e as entrevistas de emprego e mesmo algumas amizades. O examinador não percebe mais de metade do que escrevo ou tem mais que fazer para além de se degladiar com o horror de rabiscos e gatafunhos desenhados no papel. Nem sempre me aceitam na revisão de prova para ler o que escrevi. Os examinadores da minha vida quase sempre regem o seu Código Deontológico inspirados no provérbio de jogo de cartas: carta batida não é recolhida. São os calos da vida...

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