quarta-feira, setembro 05, 2007

Um dia tinha de acontecer.

Sim, foi hoje. Foi hoje. Depois de dias horrorizado a olhar para as pantufas a destoar do pijama usado por alguns clientes de supermercados americanos, colegas de aula, passeadores de cães e afins, foi a minha vez. Acabei mesmo agora de sair à rua de pijama e chinelos para depositar uma carta no marco do correio, aquele de m pequeno, como aqueles muitos outros R2D2 pintados de azul que povoam os EUA a fazerem concorrência aos ilegais, aos imigrantes, aos não-residentes, aos afro-americanos, aos BBQs com homens brancos musculados com a namorada/sexo vazia debaixo do braço em jardins de flores e arbustos bucólicos. Aconteceu. Sem me dar bem conta do sucedido, aconteceu, reparei no exacto momento em que despejava a carta no marco. Sei que agora irei iniciar uma longa viagem de morte cerebral lenta.

Guy Burgess: White picket fences! God bless America! White picket fences and apple pie! Shirley Temple! The Ku Klux Klan! Hiroshima! Nagasaki! The CIA! White socks, Bobby socks! Rednecks! God bless America! String up those niggers! Fry them communists! God bless America, land of the free!


Quando comer com as mãos eu comunico. Quando mudar para East Liberty deixo de dar notícias, irei vender filmes porno pirata e pedir que me paguem um burger.
Fica o que estou a sentir.

Merda para esta desigualdade social, merda para estes putos ricos de Porsche e para estes rapers do bairro. Merda para estas fronteiras, merda para estes muros, merda para esta Guerra, merda para estes traumas, merda para este medo, merda para estas armas, merda para esta venda de tudo, merda para este vampirismo de fofocas e boatos...
Quero respirar.
Agito os braços freneticamente no ar, no vazio, sentado na mesa da cozinha, ao lado da janela fechada e com o estore corrido, sinto-me peixe que o deixou de ser, peixe transformado em homem nas profundezas do Oceano, longe demais da superfície para lá chegar a nado, pelo menos com o pouco ar que resta nestes pulmões debilitados, cortados, perfurados por arames de aço inoxidável, a libertarem um muco amarelo acastanhado.
Perguntei-me sobre o que fazer com o meu tempo livre. Um amigo disse-me (escreveu): escreve.

1 comentário:

Nuno disse...

Pena é que a tua escrita tenha de vir com essa revolta (não diminuindo o carácter salutar da mesma)