terça-feira, junho 12, 2007

American steel (smile)

Hunt Valley, MD, EUA, 2007

A América que conheço é desenhada a linhas direitas limpas a pano e álcool e contornada a ângulos rectos podendo criar alguma sujidade onde afunila a descoberta. Todos os dias uma senhora enorme, de fato treino e ténis Nike, sai à rua com um espanador também ele enorme e limpa a minha vista. Educadamente pede aos senhores automobolistas para lavarem a chapa do seu veículo até reluzir e zanga-se a rir se algum, mais incauto faz uma travagem mais forçada. O alcatrão terá de estar impecável, apenas listado de branco menos para a comodidade de quem conduz que para criar linhas condutoras de quem olha. As árvores também são persuadidas a manterem as suas indisciplinadas folhas em ordem; a autoridade alinha os caules e as abas verdes mais não têm que se imobilizar. Comigo quieto com medo de quebrar uma instrução que ninguém me indicara, a grande senhora olha para mim e faz um sorriso puxado pelo arquear dos sobrolhos. Lá estava eu, sujinho e de linhas curvas, sem a gravidade necessária para me encurralar nos ângulos e ainda atanrantado pelo tamanho das bestas motorizadas que, delicadamente, rolavam pelo asfalto.

Hunt Valley, MD, EUA, 2007

Para melhor me encarar, a grande senhora veste um conjunto verde musgo, ligeiramente penugento como um pêssego envergonhado. Rodeia-lhe o pescoço uma corrente de ouro com apontamentos de pérola e as mãos são seguras por anéis mais grossos que o tubo de escape da pick-up que por alí cirandeava. As cortinas dos seus lábios são então apanhadas por um cordel atrás de cada orelha e eis que surge em completo esplendor o complexo dentário, alinhado e branco, cheio de rectas, enchente da boca sem uma gota de saliva. A saliva fazia ricochete na parte de trás dos dentes provocando frequentes engasgos apenas denunciados pelos movimentos trementes e irregulares do grosso pescoço. Peguei na minha Pentax, fiz uma leitura com o fotómetro e regulei a velocidade de abertura dois stops abaixo para queimar a película. Sabia de antemão que aquele branco não era reprodutível num simples sistema mecânico, que necessitaria de desenvoltura tecnológica, algo grande, feito de ferro com chips de fabrico chinês que comunicassem entre si a melhor maneira de simular a brancura daqueles dentes. Mas eu gosto deste branco sujo. Claro que a grande senhora não apreciou a texturização da simplicidade e chamou a pick-up que farejava de forma desconfiada uns híbridos que ali perto se aqueciam ao sol. Tomando-me como agressor a pick-up de frente cromada reluzente tenta uma investida que apenas é travada pela ordem dada em falsete pela grande senhora. Ensaio a fuga pela linha que estava mais perto e deixo-me escorregar até ao ângulo recto que se encontrava dois quarteirões mais à frente.
Hunt Valley, MD, EUA, 2007

Refugio-me no mall, debaixo de um papel de chocolate deixado por alguém e espero. Sei que tenho de fugir mas enfrentando ainda brancos assépticos e músculos tensos. Coloco aquele papel de chocolate no bolso no caso de ter me esconder de novo.

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