sexta-feira, abril 27, 2007

Vertigem dos olhos

A provocação cheirou-lhe a algo que não conhecia, não tinha previsto este acontecimento e agora estava desesperado por uma ideia. Sabia, também, que este pânico só iria piorar o estado de ansiedade em que se encontrava. Mas mesmo assim esperou. Quieto. Esperou, quieto. Ali, junto ao portão. Ali pá! Junto ao portão verde! As mãos procuram alguma coisa nos bolsos, com fúria, quase rebentam as costuras que criam uma bolsa onde podemos fechar o punho. O pé esquerdo não pára, o pé esquerdo bate no chão como se estivesse a dar uma música que puxasse o ritmo. Os olhos estão acossados por uma vertigem... nota-se pelo movimento rápido da pupila, frenético. De vez em quando tosse e puxa vigorosamente ar pelo nariz com um trejeito de lábio. Há ali um misto de nervosismo e de personagem, qualquer coisa entre o descontrolo e o dever ser. Não passa ninguém nesta rua, nem carros ou motas. Coça o nariz e olha para o céu aproveitando para se esperguiçar. Ele sabe que nesta altura estará vulnerável, com os músculos relaxados e aquela sensação de inundação no cérebro que o leva a fechar os olhos para não transbordar. Acabando isto fico teso novamente e os olhos voltam à vertigem.
Eu não pude dizer-lhe que estava a olhá-lo. Ainda pensei em lho dizer mais tarde mas fui adiando, cada vez mais e, sem me aperceber, punha mais peso naquela decisão. Eventualmente o peso fez-me ancorar no silêncio e nunca lhe disse "vi-te no outro dia naquela rua" e ele nunca me explicou a vertigem dos olhos.

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