sábado, dezembro 29, 2007

Fotografia: Série sobre a Palavra

O que faz falta é uma anunciação, com uma virgem e um anjo num pôr-de-sol. Na raridade de qualquer um destes itens, por virgem subentenda-se aquel@ que é o veículo da matéria geradora; por anjo quere-se o anunciador, o veículo do transmissor. Procura-se desesperadamente Lucas que divague sobre o propósito de tal acontecimento e nos indique o procedimento de tal colóquio. Eis que farejamos a palavra escrita em movimentos transversais da cabeça em relação ao movimento dobrado para a frente, veniando aquele que está por vir (e não para vir), em matilha compacta e acéfala.


Nuno Vieira Matos, Malaga, 2006

Nuno Vieira Matos, Beja, 2007

Nuno Vieira Matos, Paris, 2006

segunda-feira, dezembro 24, 2007

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Desemprego - Tarde como sempre

Venho opinar sempre tarde e fora de tempo. Recentemente [há já algum tempo :)], a Juventude do CDS, como eloquentes defensores do Patronato à antiga que são, defendem a abolição do Salário Mínimo. Duas notas já:

Patronato à antiga: que tem competitividade face à concorrência praticando salário baixos

Abolição do Salário Mínimo: não, fixação de valor mínimo "atrasa a economia", as consequência práticas da afirmação não são verdadeiramente assumidas, pelo menos segundo o site da RTP

Considero obrigatório ler estes textos:
Um

Dois

Três

Quatro

Cinco

Como a Juventude do CDS se tenta sustentar em argumentos de de cariz económico, acho delicioso ver economistas de formação a desconstruir o embuste populista da Juventude do CDS.
O meu conhecimento em economia não existe, nunca estudei nada relacionado com economia, leio os jornais e os blogs sobre o tema e muito facilmente sou convencido. O Economist convence-me constantemente que algumas medidas de Direita são as mais correctas por exemplo porque eu não sou economista, não consigo perceber o esquema nas entre linhas do texto, acredito, ponto final.
Mas isso não implica que eu defenda medidas de Direita, mesmo que muitas vezes medidas de Direita possam parecer semelhantes a medidas de Esquerda, como o Não à Constituição Europeia em França que apresentava diferentes motivações à Esquerda e à Direita, mas acabavam sempre no mesmo Não.
Acredito no que leio, mas eu sou mais do que o que leio.
Vivi até ao momento em Portugal, França e EUA. Em todos estes países, o "Patrão" de mão de obra não qualificada vai sempre pagar pouco pelos serviços prestados, sempre o mínimo que conseguir. Por isso, por exemplo, existe Trabalho Infantil em Portugal e Imigração Ilegal em França e nos EUA. A Direita Conservadora é contra a Imigração, a Direita Libertária é contra o Salário Mínimo.
Eu, como sou pelas pessoas, sou contra as duas Direitas, acima de tudo sou pelas pessoas, sou contra as Fronteiras quando impedem a livre circulação de pessoas e sou a favor de um Salário Mínimo para todos que permita a acessibilidade de todas as pessoas à dignidade humana no país onde habitam.
Considero bem engraçado o facto de nuitos dos países ricos e desenvolvidos onde não existe Salário Mínimo praticarem duras leis relativamente à Imigração. No fundo a Direita Conservadora e Libertária são a mesma coisa e defendem os mesmos interesses.
Recentemente, na altura do 11 de Setembro, a RDP passou na Antena 1 alguns Documentários sobre as principais cidades de alguns Estados dos EUA. Quando chegou a vez de Pittsburgh, cidade a renascer de uma violenta crise que a tirou do ranking de uma das cidades mais ricas dos EUA, o Chefe do Governo da Cidade (Mayor) disse aos jornalistas portugueses que recebia de braços abertos na cidade mão de obra qualificada estrangeira. Isto numa cidade que se desenvolveu na base da mão de obra não qualificada, gente que hoje vive no desemprego (ou emprego precário) e numa elevada miséria social, cultural e intelectual. Obviamente fica mais barato mandar vir de fora do que apostar no desenvolvimento dos recursos humanos da cidade. Mas será que ao longo prazo a cidade fica melhor?
O aumento da fractura social nos países desenvolvidos ainda vai acabar mal, pelo menos no passado sempre acabou mal.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Fotografia: Série natural

Tenho uma dor de rins e tomei um produto natural à base de ingredientes naturais obtidos de processos tradicionais a partir de matérias-primas naturais cultivadas segundo métodos tradicionais usando apenas adubo natural de animais apenas alimentados com o que a natureza dá. O médico diagnosticou-me cálculos renais, pedras nos rins. Naturalmente irão sair.

Nuno Vieira Matos, Vila Nova de Cerveira, 2006

Nuno Vieira Matos, Vila Nova de Cerveira, 2006

Nuno Vieira Matos, Vila Nova de Cerveira, 2006

sexta-feira, novembro 30, 2007

Porque a vida não é só o Académico

Também há o Lusitano e o Viseu Benfica. Eu, por motivos de proximidade e de amizade apoio o Lusitano, embora tenha familiares que já jogaram no Viseu Benfica.

terça-feira, novembro 27, 2007

Fotografia: Série em extensão

Eis o espraiamento do meu ser que se deixa intimidar pelo alongamento do espaço.

Nuno Vieira Matos, Alentejo, 2005

Nuno Vieira Matos, Alentejo, 2005

Nuno Vieira Matos, Castro Verde, 2006

segunda-feira, novembro 26, 2007

Sustentabilidade e Energia, um Contributo Nacional de Peso


Um grupo de estudantes de Doutoramento na Área das Políticas Públicas nos Estados Unidos da América ganhou recentemente um concurso para se publicar no Jornal USA Today uma carta aos candidatos presidenciais sobre Energia e Sustentabilidade, um tema que tem crescendo exponencialmente para um consenso Universal em volta do cerne da mensagem da carta publicada. Dentro desse grupo de estudantes encontra-se a compatriota Inês Azevedo, licenciada em Engenharia do Ambiente pelo IST e actualmente a desenvolver investigação na área de Tecnologias e Políticas em Energia e Desenvolvimento Sustentável. Como licenciada em engenharia, o terreno de investigação onde a Inês se movimenta passa por áreas como Microeconomia, Sociologia, Engenharia de Tecnologias e Ambiente, acabando por produzir novas maneiras de olhar politicamente para um mundo onde a maioria das decisões de cariz técnico e científico são efectuadas segundo lógicas bem distantes da realidade e conhecimento técnico-científico. Num mundo onde infelizmente os cientistas e os fazedores de leis/políticas se encontram divorciados e de costas voltadas uns para os outros. As alterações globais climáticas foram uma das maleitas resultantes desse divórcio com consequências terríveis para a vida do homem na terra. Venham mais portugueses e cidadãos do mundo em geral com o mesmo talento de Inês Azevedo.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Foi à frente da Sé da Guarda

O carro do teu pai já não funcionava há algum tempo, eu sabia que podia haver problema. Por isso propus ir de comboio para visitar os meus pais e o meu tio Manel ao Hospital e deixar-te o carro para as tuas necessidades. Disseste que não, eu voltava mais rapidamente com o carro e seriam menores as saudades. Eu insisti, mas as tuas vontades sempre foram inquestionáveis e extremamente insusceptíveis a qualquer mudança. Se calhar porque passaste o tempo todo até saíres de casa dos teus pais sem nunca te terem feito muitas vontades. Como de costume obedeci e voltei à terra Natal a ouvir o Debate Mensal da Assembleia da República contra o Durão Barroso. Coitado do Ferro Rodrigues, do Partido Ecologista Os Verdes, foram todos enchuvalhados pelo tom arrogante do Cherne Guerreiro.
Cheguei à Guarda para jantar. Eu quando vou para cima levo sempre uma ansiedade contida no peito, em risco de explosão. Eu adoro voltar a casa, mas não gosto de ficar muito tempo porque todos os meus amigos encontram-se fora ou com vidas atarefadas sem vagar para me enfiarem nelas com um jantar ou uns copos. Assim que cheguei, telefonei-te para dar beijinhos e falar de umas aves de rapina lindíssimas que econtrei na zona de Coimbra, eu acho que eram milhafres mas não estava certo. Lembro-me que adoravas as histórias que muitas vezes te contava ao deitar, telefonei-te também para contar que durante o caminho tinha inventado uma história sobre milhafres para te contar no Domingo antes de adormecermos. Sempre me custava estar longe de ti, não muito porque sentiria violentamente a tua falta, afinal eram somente dois dias, mas porque sempre que me ausentava custava-te sempre a encarar-me quando regressava a ti, nunca percebi porquê, perguntei-te umas quantas vezes, mas tu usaste sempre uma maneira de me fazer sentir mal por perguntar.
No Sábado fui passear sozinho pela parte velha da cidade. O dia era de Sol e muito convidativo a desejar estar com quem se ama. Umas horas antes, pela manhã tinha-te ligado e soube que estavas ter problemas em andar com o carro do teu pai, não pegava. Telefonaste ao teu amigo Ricardo para te ajudar e ele nada conseguiu fazer, acasbaste por ligar ao Seguro, eles trataram do assunto. Sugeriram que devias andar algum tempo com o carro a mais de 100 quilómetros/hora. Depois liguei-te antes do almoço para te falar da minha Avó e dos dióspiros que ela queria que eu te levasse e despachaste-me para não incomodar a tua condução. Naquele dia deslumbrante de sol, quando estava à frente da Sé da Guarda resolvi ligar-te para declarar todo o amor que tinha por ti. O dia assim o obrigava.
Atendeste o telefone e estavas a almoçar com o Ricardo em Sesimbra, o passeio estava a ser bonito. O Ricardo tinha ido ao quarto de banho e tu disseste-me com um tom muito preocupado, grave e sério que o Ricardo achava que nós nos telefonávamos muito. Eu respondi que não via problema nenhum nisso, temos coisas para dizer um ao outro, somos amantes, queremos dizer que nos amamos. Tu disseste com tom sofrido "Oh Xandeee, tu sabes que não é isso". "Então é o quê Margarida?" perguntei-te eu. Mais uma vez tu usaste a tua maneira mágica de me fazer sentir mal por te perguntar. E tudo acabou com a ilusão de que tudo era claro.
Cenas como estas repetiram-se aos milhares. A tua insatisfação com coisas que me pareciam banais e sem problema. Na verdade, isto sempre existiu desde o início da nossa relação. Ou porque o Nuno te tinha dito que passávamos muito tempo juntos, ou porque a Maria te dizia que eu era mais baixo e tinha um ar mais jovem do que tu, ou por outras mais questiúnculas onde eu não via problema, nem tu te dispunhas a me elocidar com simplicidade e clareza. Mais recentemente, um ano antes de acabarmos, no dia em que conheci o teu amigo Mexicano, ele disse-me que o mais provável era eu e tu acabarmos e que ele sabia o que isso era porque já tinha sido casado, estava disposto a dar-me todo o apoio que eu precisasse. Eu fiquei estupefacto, o nosso reencontro depois de teres ido trabalhar fora estava a ser fantástico, eu estava a adorar ser levado por ti a locais novos, a ser apresentado a pessoas novas e estava a viver o momento mais surreal da minha vida como teu amante. Contrariamente ao que acontecia no passado, não te fui aborrecer com estas questão, não queria estragar os dias de beijos e sonho. Não queria mais daqueles momentos que me faziam sentir culpado por questionar coisas que te parecem claras e indiscutíveis, não queria tocar nos teus tabus. Na verdade, o Leonardo tinha razão, soube depois de teres acabado tudo que até havia um Inglês atrás de ti. Nunca percebi bem o que se passou. Se calhar os teus amigos antes de me conhecerem já te queriam a estar com outra pessoa, ou simplesmente sozinha e descomprometida como eles. Sei é que nunca fui bem acolhido pelos teus amigos do teu novo trabalho, da tua nova vida. Sei é que a partir desse momento, os momentos em que questionavas tudo entre a gente aumentaram exponencialmente. Houve até quem lançou o boato que eu tinha problemas mentais. Estava tudo traçado, eu sentindo-me cada vez mais diminuído comecei a irritar-me mais e a discutir mais contigo. Mas por todos os meus erros já te pedi desculpas na minha última carta e não há um único dia em que não me arrependa do mal que proporcionei à nossa relação.
Quando tudo acabou cheguei a sentir-me aliviado por nunca mair ter de viver aqueles momentos agoniantes em que não sei porque tens problemas com algo e em que faça o que fizer acabo sempre por te magoar, para mal dos meus pecados. Mas recentemente em Vigo, conheci uma retrovira Americana professora de Yoga que ao quarto dia de queca fez-me algo semelhate, mas muito pior, se as nossas situações eram estranhas, aquilo foi o fim do mundo em termos de loucura. Acabei tudo ali e elevei-te a Santa. Por isso, fiquei até hoje a matutar na vida e decidi mudar-me primeiro a mim antes de voltar para a frente. Estou certo que tenho de ser outra pessoa para me relacionar com mulheres. Se pelo menos eu fosse gay, mas não, tenho mesmo de ser outra pessoa.
Por isso meu doce, velho e eterno amor, antes do ponto final deste texto quero enterrar isto tudo para passar para a frente, depois deste ponto final eu sou outra pessoa e estas cartas acabaram, as magoas, os arrependimentos, a tristeza, tudo isso acaba aqui.

Neste blog nunca mais se vai beber Cerveja Tagus.

O motivo encontra-se elucidado aqui.
Sinto-me bem enojado.

Durão Barroso

Na juventude Durão Barroso era um homem da luta, mas não como os do Vai tudo abaixo a dizer alguma coisa com sentido.

Recentemente, numa entrevista conjunta ao DN e à TSF, Durão Barroso contrariou o seu estilo dos tempos em que era jovem e assumiu num tom moderado e com pretextos branqueadores o seu erro em ter apoiado a Guerra no Iraque com base na tese da existência de armas de destruição maciça em solo Iraquiano. Foi claramente uma lavagem pilatiana de mãos enquanto a sua candidatura para renovar o seu mandato como Presidente da Comissão Europeia não estiver na boca do dia.
Há uns anos atrás, no Reino Unido, Tony Blair admitiu o mesmo erro, mas sem remeter a culpa para outros como Barroso acabou por fazer ao se referir a Clinton por exemplo. Tony Blair comportou-se como o homem livre e autónomo que é, assumiu as suas responsabilidades e acarretou com as consequências políticas dos seus actos. Nessa altura, a ruidosa e intrometida Comunicação Social Britânica não poupou em tempo de antena para expor e explorar a questão segundo o nível de importância que lhe é devida. Em Portugal, no Programa de Noticiário da RTP onde vi a notícia relativa a Durão Barroso, somente passou o excerto da entrevista onde Barroso assume ter errado. No mesmo programa mostraram-se entrevistas a personagens do mundo da Bola, fizeram-se reportagens em Directo sobre assuntos de importância menor quando comparados com a Guerra no Iraque e as suas consequências no que o mundo é hoje.
Não me quero armar em Santana Lopes, nem me atrevo pois falta-me o jeito para o engate e a admiração fiel da comunidade feminina, principalmente daquela senhora que serve um peixe muito bom num Restaurante em Buarcos, ao lado da Figueira.
Mas atrevo-me a dizer que este país encontra-se louco em deixar assim impune tamanha falha de um ex-governante da Nação a exercer as funções que exerce. Estamos agora com medo de manchar o prestígio nacional? Um dia destes acaba-se a Democracia em Portugal para não se manchar o prestígio.
Sempre que oportuno ou não, fala-se mal do legado trágico de Guterres. O legado de Durão Barroso relativamente à Guerra no Iraque foi uma ragédia de maiores proporções, mas nada se diz, nada se comenta, uma simples passagem radiofónica, nada mais.

Nostalgia

Aqui.
Os Um Zero Amarelo dos quais eu gosto muito com a presença de Ana Moreira, essa cara muito bonita do Cinema e Televisão nacionais.

sábado, novembro 17, 2007

Carta Póstuma de Ljubljana para Faro

O nosso casamento.

Desculpa não ter estado à altura,
Desculpa não ter arranjado por esses lados uma rede social interessante para te apresentar,
Desculpa não ter tido dinheiro para pagar uma empregada,
Desculpa não ter tido dinheiro ou influência para ter comprado um carro mais cedo,
Desculpa ter a pila torta,
Desculpa ter-te feito correcções ao teu modo de fazer comida,
Desculpa por ser intelectualmente e profissionalmente um falhanço,
Desculpa não te ter brindado com muitos mais presentes, supresas e carinhos,
Desculpa por ter contribuído para a tua vida com banalidades,
Desculpa as discussões,
Desculpa não te ter levado mais vezes a jantar fora,
Desculpa não te ter estimulado a felicidade,
Desculpa os mal entendidos,
Desculpa a presunção,
Desculpa ter-me enfiado num trabalho que me chupou o tempo que devia ter sido dedicado a amar-te e para as férias contigo no Brasil,
Desculpa ter estado sempre na tua mão até ter perdido valor,
Desculpa a falta de orgulho,
Desculpa ser um palhaço facilitista e preguiçoso,
Desculpa a falta de paciência,
Desculpa não ser o macho alfa dos teus sonhos com mulheres de fora da tua cabeça a invejarem-te,
Desculpa esta fragilidade que me torna num ser ainda mais repelente.

Nunca tive más intenções em relação a ti, mas de boas intenções está a minha vida cheia, nao é?

Desculpa ter sido um mau amante.

O dia mais feliz da minha vida foi o do nosso casamento.
Em Ljubljana chove, consegui decifrar uma seca em Portugal em letras garrafais num jornal deitado fora com uma imagem de um homem do campo a chorar...

quarta-feira, novembro 14, 2007

segunda-feira, novembro 12, 2007

Porque não?

Sem acabar com as pontuais séries de fotografia que vou 'postando' aqui arranjei uma forma mais estruturada de as mostrar: aqui.

"Dar um salto para a minha doce loucura"


Daqui para ali existe um limbo, sempre, nem que seja de uns segundos, o limbo existe sempre.

Esta frase do album de Ana Brandão e Carlos Bica encontra-se fora daqui, encontra-se numa viagem solitária.

Acordam-me com uma língua da Europa de Leste, acho ser a terceira vez esta noite. Automaticamente retiro o passaporte do bolso e mostro-o ao portador da lanterna. Ontem estive duas horas a falar com uma senhora Croata de olhos negros e vestida de preto com um lenço à cabeça sem falarmos a mesma língua. Fiquei a saber que tinha um filho a trabalhar num Cruzeiro de luxo que tinha recentemente passado em Lisboa. Tinha recebido um postal onde falava de uma rua que subia com muitos bares. Ela ficou a saber que me tinha divorciado, desistido do emprego, vendido tudo o que tinha e ganhava agora a vida a cantar Bob Dylan nos metros de cidades europeias. Para quem falava por gestos, acho ter sido uma conversa produtiva para duas horas.

Em Faro eu era um homem igual aos outros, olhava nos olhos das pessoas e via gente igual a mim. O meu olhar era recebido, falava com pessoas com o meu olhar. Trocas de olhar podem encher o nosso dia de palavras, mesmo quando nenhum som sai das nossas bocas.

Eu tinha de sair de Portugal. Todas as músicas da rádio falam de amor e o silêncio dava asas à minha voz para me torturar, macerar a culpa de ter sido um mau amante. Era-me impossível trabalhar, dormir, sair com amigos, estar com a família. Um dia fui a Huelva representar a seguradora em defesa de um homem segurado por nós que se encontrava em estado grave no hospital depois de um acidente de trabalho. Foi quando adormeci na esplana, debaixo do Sol mulher do Sul de Espanha, com uma cerveja nas mãos, que eu percebi que precisava de ouvir uma língua diferente daquela que eu usei para dizer amo-te à minha ex-mulher. Precisava de sair de tudo, precisava de ser uma outra pessoa. Mas que pessoa posso ser aos 35 anos?

Essa é a resposta que tenho andado a procurar por essa Europa fora. Quando se é pedinte entra-se noutro mundo. Somente os jovens de mala às costas e os sem abrigo falam comigo, esses agora são os habitantes do meu mundo. Os primeiros perguntam-me se vendo droga, os segundos se tenho vinho comigo. Os habitantes do meu mundo vivem em limbos, uns eternos outros de viagem por uns dias ou semanas. Quando olho para as pessoas que um dia fui, atarefadas na rua a fazer o que eu um dia também fiz com todo o sentido do mundo, não recebo um olhar em troca, quanto muito um sorriso nervoso e embaraçado a culminar num acelerar do passo de marcha para bem longe de mim.

Uma vez, há uns anos atrás, encontrei um amigo do Liceu na beira da estrada a pedir boleia. Levei-o a Tavira, ele andava a fazer Teatro de Rua de Junho a Setembro pelas cidades do Algarve. Falámos do que é ser-se actor e acabámos por falar sobre o que é ser-se uma pessoa, o que é ser quem somos. Eu sou um preconceito, essa foi a conclusão da conversa, todo o mundo, todos os conceitos são preconceitos. Foi isso, depois nunca mais o vi, ficou ao lado da bomba da BP e eu voltei para Faro, ia essa noite jantar com a minha ex-mulher e estava atrasado para o encontro.

domingo, novembro 11, 2007

2 milhões de pobres

Eu apoio a necessidade de os partidos políticos terem de satisfazer uma cota mínima de 50% de elementos do sexo feminino nas suas listas de candidatura para a Assembleia da República. Numa sociedade onde existe mais homens que mulheres, numa sociedade onde ainda existe descriminação sexual a variados níveis e em variados sectores públicos e privados, é impossível pensar-se numa representatividade Democrática e fidedigna da sociedade portuguesa na amostragem de indivíduos a exercerem o cargo de deputados na Assembleia da República sem uma presença forte das mulheres.
Tenho o mesmo ponto de vista relativamente aos pobres. Toda a gente sabe que os pobres não são eleitos deputados. Consequentemente, a pobreza na Assembleia da República é observada de várias janelas, com vários filtros. O CDS-PP olha para a pobreza com medo de dentro do Jaguar ou com pena de dentro da carrinha de caridade aos sem abrigo durante o Natal. O PSD vai na carrinha com o CDS-PP e acredita na pobreza como uma fatalidade sem possibilidade de derrubar em combate. Algum PS olha para a pobreza de dentro da Versalhes, o outro olha para os dados estatísticos e decide implementar o rendimento mínimo garantido. Como Antropólogos activos, o PCP e o BE entram dentro da pobreza, batem-se pelos pobres, mas os pobres não se identificam com a voz destes partidos.
Não seria a Democracia Portuguesa enriquecida se existisse uma cota de 20% de pessoas com rendimento mínimo ou baixo nas listas de candidatura dos partidos políticos portugueses para a Assembleia da República? Não seria o combate contra o crescente flagelo da pobreza mais realista e eficaz se 20% das pessoas da Assembleia da República soubesse verdadeiramente o que é a pobreza?

quarta-feira, outubro 31, 2007

Fotografia: Série em carris

Quando eu era miúdo tinha como vizinha mais ou menos próxima a estação de comboios que viria a descobrir, idêntica, em vários outros sítios. Assim como o som da motorizada ainda me faz lembrar as odiadas sestas em casa dos meus avós porque esta teimava em, pavlovianamente, passar em frente dos nossos olhos fechados, o som do comboio faz-me recordar a minha infância. Nessa altura as coisas simplificavam-se: o comboio não necessitava de ter uma origem e um destino; teria apenas que se preocupar em passar. Desde que se materializasse naqueles breves instantes, o comboio cunmpria a sua função de existir no meu mundo. Ficavam apenas os carris para os jogos de equilibrismo e para nos ensinar o ponto de fuga. Os carris que simplesmente vinham de lá e iam para acolá.

Nuno Vieira Matos, Régua, 2007

Nuno Vieira Matos, Vila Nova de Cerveira, 2007

Nuno Vieira Matos, Paris, 2007

sexta-feira, outubro 26, 2007

A noite de lua cheia sem nuvens



Eu percebo...
Eu percebo...
Eu percebo porque choram as crianças,
Eu percebo porque somente os doentes criticam o sistema de saúde Americano,
Eu percebo porque me doem as costas,
Eu percebo porque os sindicatos são contra o sistema de saúde Americano,
Eu percebo porque caíram as torres gémeas,
Eu percebo porque as mulheres não percebem quando estão giras,
Eu percebo porque é impossível mudar o sistema de saúde Americano sem presença das seguradoras,
Eu percebo porque se partem os copos nas minhas mãos,
Eu percebo porque o Fordismo é um osso duro de roer para se mudar a insustentável sociedade de consumo Americana,
Eu percebo porque me pedem comida na rua e eu nada dou,
Eu percebo porque me falha a memória,
Eu percebo porque existe diferença de classes,
Eu percebo porque vivo em paradoxos constantes,
Eu percebo porque o mercado não funciona,
Eu percebo porque o Estado injecta dinheiro em Wall Street e deixa milhares de pessoas numa miséria intelectual, cultural e consequentemente de tudo na vida,
Eu percebo porque cada vez mais os políticos são profissionais,
Eu percebo porque nenhum corpo de mulher me cativa tanto como o teu,
Eu percebo que não percebo nada e que isto nada mais é do que um cliché...

Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é Fado

Isto não é Fado, um dia vi a Senhora Dona Amália a dizer Obrigado, obrigado..., bem ao longe. Depressa fui comprar flores, mas quando voltei ela já estava fora de vista.
Isto não é Fado, a Senhora Dona Mariza canta bem como a Senhora Dona Amália. Se algum dia a vir vou comprar as flores mais depressa.
Agradecer-lhe ter cantado o que eu agora estou a sentir neste laboratório.



A letra é lamechosa demais para mim, diria mesmo que se encontra antes do limiar do ridículo, mas estou mais ou menos lá, mas sou do sexo masculino, obviamente a letra é de mulher.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Fotografia: Série dos meus jardins

Os jardins de minha infância estão povoados de depressão que se torna mais funda quanto mais me espanta a não reversibilidade desses anos. Então, num golpe de magia amudada desertifico-os, despojo-os de todos e para lhes dar um ar mais limpo corto rente as texturas de modo a apenas ficarem superfícies. Fico assepticamente só, com dor de peito e dificuldade em respirar. Nestas alturas os olhos fecham e abrem muito rapidamente para apagar estas lembranças como se esse fosse o meio eficaz de eliminar recordações. Mas eu sei que apenas as adia.


Nuno Vieira Matos, Paris, 2006

Nuno Vieira Matos, Paris, 2006

Nuno Vieira Matos, Paris, 2006

quarta-feira, outubro 24, 2007

Galos de Barcelos em Pittsburgh (EUA)



Foto de Mauren Amelia Antkowski.

Festa - Lisboa - IST - Dolce Farinheira!



Foto de Ana Simões

Diz o GTIST:

A festa onde vais querer estar!

Apetece-nos tentar provocar incidentes urbanos coloridos a partir de enchidos cinzentos. Vinde participar no que poderá muito bem ser a criação de um novo conceito de entertainment, sem publicidade, sem moranguinhos, sem vergonha na cara, e, sobretudo, alimentado a:

SOPA, FARINHEIRA, BOLAS DE SABÃO, TEATRALIDADES, O AMOR E BOA MÚSICA
(de J.S. Bach a Arcade Fire, passando por António Variações e Carlos Paião).

SÁBADO, DIA 27 OUTUBRO, das 22H às TANTAS
NO TELHADO DA SALA DO GTIST
ENTRADA LIVRE (SUJEITA A PRESENÇA)
dj's, vj's, bj's e nj's internacionais! Muita e boa música! muita e boa cerveja!

VEM! O GTIST PRECISA DE TI! TU PRECISAS DO GTIST! VEM! TU!

Passem este e-mail para os vossos amigos, amigas e outros conhecidos. Eles nunca vos perdoarão se não o fizerem. Nós também não.

A Meteorologia prevê temperaturas à volta de 14º para essa noite e um céu limpo. O GTIST prevê mais calor e alguma névoa de origem marítima.

terça-feira, outubro 23, 2007

Os 3 pastorinhos (Inspirado em declarações de Manuel da Fonseca)


A foto vem daqui, tirada por Manuel da Fonseca.
Toda a gente que leu nas aulas de Religião e Moral as obras completas da lenda dos 3 pastorinhos de Fátima sabe que o Francisco era o mais reguila. Pois reza a lenda que, Nossa Senhora de Fátima, irritada com as diabrices de Francisco deu um "chuto na mona" do petiz sem bem pensar nas consequências. Tempos idos em que a violência infantil não era crime. Ficam as provas.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Red Devils


Pai, desculpa, perdoa-me por favor, não me deserdes.
Lembra-te que em tempos jogaste numa equipa com o nome de Viseu Benfica.
Isto tudo porque pertenço a uma familia Sportinguista e de momento estou a jogar no torneio de bola da Universidade numa equipa com o nome de Red Devils, claramente inspirado na claque do clube rival. Na equipa nós até somos encorajados a usar vermel..., aham..., desculpem..., encarnado.
Familiares queridos em geral e querido pai em perticular, peço-vos mil perdões pelo acto infiel.
Pensei pelo lado positivo, podia ser pior, vale mais isso que a droga ou o Partido Republicano.

Paradoxo do dia

Pior do que ser Médico é não o ser.

domingo, outubro 21, 2007

Quem és tu romeiro? NINGUÉM !!! (ou um espião comunista)



Ontem saí da toca e fui a um bar Pittsburghiano, mas decente, bem decente, bom som, bandas ao vivo, malta menos decadente do que é costume, fumo ao estilo de Portugal, bem bom para as circunstâncias de Pittsburgh. Fui com malta conhecida e com malta conhecida de malta conhecida que encontrou lá ainda mais malta conhecida. Em termos de noite, Pittsburgh é uma cidade ao estilo do Portugal rural. Muito homem na noite e poucas mulheres: umas quantas doidinhas da terra e umas quantas estrangeiras, nada mais.
A noite toda bebi a bebida social e tentei conhecer pessoas, somente naquela de evitar ficar a olhar para a tv ou para o infinito num local repleto de gente, nada de engates ou esquemas mais avançados. Como os homens estavam numa de caçar Fêmeas e as mulheres estavam debaixo de caça intensiva, senti uma solidão profunda e dolorosa a noite toda. Vagueei pelo bar, mergulhei na multidão, e não me senti menos só do que se estivesse ficado em casa a ver o filme Iraniano que já estou para ver há algum tempo. Na semana passada tinha ido ao mesmo bar somente com um amigo, sem ver gente conhecida e senti-me mais acompanhado. Tentei meter conversa com malta, mas a coisa não pegava, encontrei até alguma hostilidade vinda da malta conhecida da malta conhecida. Eu percebo, eu mesmo se estivesse numa de engate nunca dava conversas a um tipo como eu. Tudo bem.
A melhor tentativa de conversa foi com um primo de NY de uma amiga, a única pessoa que ainda estabeleceu uma conversa comigo de 2 minutos. Apresentei-me, perguntei-lhe de onde ele era e depois disse-lhe que era de Portugal (Viseu). Ele perguntou-me, o que faz um tipo de Portugal em Pittsburgh, ao que eu lhe respondi inicialmente antes de procurar a verdade: a fazer um doutoramento. Ao que ele perguntou, mas porquê Pittsburgh. Bem, podia-lhe ter dito a verdade, vim atrás do amor, mas isso acabou tudo e agora nem sei bem o que ando aqui a fazer para além de trabalhar e limpar a casa. Mas ele estava com ar de poucas conversas e de poucos amigos e, para além disso, a minha intimidade fica para os blogs. Por isso respondi-lhe: porque sou um espião comunista. Acabou a conversa por ali, um pouco como acabam os momentos de humor dos malucos do riso, com umas caras exageradas e uns olhos esbugalhados. Se calhar Em Frei Luís de Sousa, Almeida Garret devia ter optado por uma comédia nonsense e punha um comunista a responder a Telmo.
E assim se passou mais uma noite social em Pittsburgh, a ver se aprendo a nunca mais tentar interagir com os indígenas, principalmente enquanto não fizer uma mudança de sexo. No Halloween vou-me vestir de mulher e vou ver se a simpatia aumenta. Vou levar uma arma na carteira no caso de alguém se entusiasmar e querer sexo. Eu visto-me de mulher no Halloween para meter susto como a Thatcher, a Ferreira Leite ou o J. Edgar Hoover, nunca para paneleirisses. Quem é que pensam que eu sou?
NINGUÉM !!!

Publicidade (alguns dias já passaram, mas ainda se pode disfrutar muito em Almeirim)


Nos dias 19-20, 26-27 de Outubro e 02-03 de Novembro de 2007 realizar-se-á a exposição «OUTRO SOB VÁRIOS ASPECTOS» na TABERNA TOINO DA CUNHA, Rua Condessa da Junqueira, nº 98, em ALMEIRIM.

Intervenientes:

Escultura - Ricardo Manso

Vídeo - João Manso

Design - Tiago Marques

Fotografia - Filipe Bonito

Instalação - João Cavaleiro

Música - Pedro Azinheira

A exposição pretende abordar a temática do "outro" - a influência exterior na criação individual - através de diferentes suportes e perspectivas. Para além disso, haverá também um conjunto de acontecimentos paralelos impulsionados pela mesma temática:

Sexta 19 de Outubro

22:00 Inauguração + Conversa sobre a exposição com convidados


Sábado 20 de Outubro

18:30 Workshop de desenho orientado por Ricardo Manso

22:00 - Concerto com Gume Lume


Sexta 26 de Outubro

22:30 Projecção do documentário "Arritmia" realizado por Tiago Pereira


Sábado 27 de Outubro

17:30 - Projecção de curtas de animação

22:00 - Concerto com Bubble Bath


Sexta 2 de Novembro

22:00 - Concerto com Campino Project


Sábabo 3 de Novembro

18:30 - Workshop de layout orientado por Tiago Marques

22:00 - Performance "Sem nome, alguns acontecimentos não identificados" por elementos do GTIST + Festa de encerramento com selecção musical de Artur Gil

+ info em:

http://www.expovariosaspectos.blogspot.com/

http://www.myspace.com/outrosaspectos

quarta-feira, outubro 17, 2007

sexta-feira, outubro 12, 2007

Fotografia: Him

You don't fit in our lifestyle! We're fast, we're radicals! We know want we want! This is our time and we will swallow you. I'll take a picture of you and I'll email it to the poors. They will love you. I will sell you. They will buy you. I will profit from you. I adore you the same way I despise you. I lend you to the poors. Kiss him and the land of plenty is yours.

Nuno Vieira Matos, Linha de Sintra, 2005

Nuno Vieira Matos, Vigo, 2006
Nuno Vieira Matos, Vila Nova de Cerveira, 2006

terça-feira, outubro 09, 2007

"Algo me diz que..."


No outro dia o meu amigo Pops dizia-me que ele era mesmo bom a programar e a organizar programas, esse é o seu talento natural. Ouvir a expressão "eu sou mesmo bom a..." despoletou automaticamente em mim um exame de consciência sobre as coisas em que eu sou mesmo bom. Esse exame acabou em chumbo vergonhoso com pontos negativos e tudo, parecia-me nada existir no qual eu seja mesmo bom. Hoje lembrei-me que isso não é bem assim. Fui como aqueles alunos que se lembram das respostas a uma pergunta num exame bem depois da hora de entrega, não havendo qualquer efeito na nota final, mesmo sabendo, fica para sempre nos papeis de registo de notas como não sabendo. Para mal dos meus pecados, esse tipo de desenlaces em exames é a história da minha vida. Pois a minha lembrança retardada veio triste como todas as outras até ao momento.
Uma noite estava eu em Drave com uns amigos. O Miguel meditava numa tentativa de concentrar em si as energias da terra para depois as usar no engate a gajas, eu pegava num longo pau durante um curto silêncio que cortava uma conversa sobre Sepúlveda com o João. Levantei o pau e disse "Algo me diz que esta noite ainda é uma criança", espetando vigorosamente de seguida o pau no chão. Aquele chão tremeu assim que sentiu o meu "Algo me diz que" associado ao penetrar do pau. Logo depois de fecundar levemente a terra, começou a ouvir-se um ronco cavernoso e bem fundo a aproximar-se da gente solo acima. O medo pediu-me cobardemente que tocasse naquele chão. O tremor passou e dissipou-se pela superfície daquela aldeia, da minha crusta terrestre. Nós os três abraçámo-nos e a minha noite não teve mais trevas. Até o filho da puta do escuteiro que dormia na sua tenda acordou com aquela luz. Fica-se aqui a saber, fora do exame chumbado, aquilo em que eu sou mesmo bom, nos meus "Algo me diz que...", eles fazem a terra tremer, isso eu faço mesmo bem, embora quero informar antes de mais conversas que nada tive a ver com o Tsunami que vitimou a Índia, o Sri Lanka , a Tailândia e a Indonésia.
Recentemente, uma mulher acabou uma relação amorosa comigo, não foi a primeira e "algo me diz que" não vai ser a última. Com este meu jeitinho em ver castelos de granito onde se encontram castelos de cartas. Quando se acaba uma relação sem iniciativa própria é como chumbar no exame, falhar na entrevista de emprego. Para além de me lembrar das respostas correctas bem depois do chumbo, eu escrevo com uma letra péssima, tanto os exames escritos como as relações e as entrevistas de emprego e mesmo algumas amizades. O examinador não percebe mais de metade do que escrevo ou tem mais que fazer para além de se degladiar com o horror de rabiscos e gatafunhos desenhados no papel. Nem sempre me aceitam na revisão de prova para ler o que escrevi. Os examinadores da minha vida quase sempre regem o seu Código Deontológico inspirados no provérbio de jogo de cartas: carta batida não é recolhida. São os calos da vida...

segunda-feira, outubro 01, 2007

Fotografia: Série à volta da sombra do branco

Vi-te debaixo daquela lona branca que se projectava no solo através da sua sombra. Mirei-te no meio da multidão tentando salvaguardar parte do teu espaço usando o corpo em losângulo e os lábios cerrados. Sem aviso prévio ao homem do tambor deste um passo em frente enquanto deixavas os cotovelos a marcarem o espaço acabo de abandonar. Depois curvaste à direita enquanto reagrupavas os braços na direcção do teu corpo. Quando voltei a cara para acompanhar a tua figura já so te vi o pé esquerdo em jeito desfocado, que a esquina te escondeu. Deixaste-me ali sozinho com a sombra. Cheirou-te a beijo ali perto concerteza, e tu foste como predador do sangue que estava a ser comprimido nos lábios e nos seios. Não te segui que nos sonhos tenho dificuldade em correr mas imagino que ficaste a olhá-los para ver como se faz.

Nuno Vieira Matos, Vila Nova de Cerveira, 2006

Nuno Vieira Matos, Córdoba, 2006

Nuno Vieira Matos, Málaga, 2006

Em cheio no alvo!



Este nosso blog anda atrasado, vem tarde, toda a gente sabe há muito o que aqui comento, mas isto foi do melhor que ouvi/li nos últimos tempos e eu estou com uma vontade visceral de fazer aqui a minha homenagem a João Pacheco. João Pacheco fez no jantar de entrega dos Prémios Gazeta 2006 o que tinha de ser feito, no momento certo, no local certo, perante as pessoas certas. Melhor nunca vi. Estou muito orgulhoso de João Pacheco, mesmo. Como amigo fico muito contente pelo reconhecimento da mestria do seu trabalho, mas como homem de esquerda fico orgulhoso pelo sentido de oportunidade e pela elegância e força do golpe nessa máquina política camuflada de propaganda e boas intenções que hoje destroi aos poucos os direitos fundamentais do Homem em Portugal. Isto sim é acção cívica, sem raivas, radicalismos enervados ou sentido destrutivo. Directo e curto. Obrigado João.
Fica aqui uma lição de João Pacheco de como um homem de esquerda neste mundo moderno pode actuar eficazmente contrariamente a uma linguagem de uma esquerda moderna que muita gente diz representar e que na realidade não toca ninguém nem fala para ninguém.
A reportagem do Jornal 2 com curta entrevista João Pacheco pode ser vista aqui.

Fica aqui o discurso na integral:
Lisboa, Ruínas do Convento do Carmo, 25 de Setembro de 2007


Obrigado.
Obrigado à minha família. Obrigado aos jornalistas Alexandra Lucas Coelho, David Lopes Ramos, Dulce Neto e Rosa Ruela.
Obrigado a quem já conhece “O almoço ilegal está na mesa”, “A caça à pedra maneirinha” e “Guardadores de sementes”.
Parabéns aos repórteres fotográficos Nuno Ferreira Santos e Rui Gaudêncio, co-autores das três reportagens, com quem vou partilhar o prémio monetário.
Parabéns também ao Jacinto Godinho, ao Manuel António Pina e à Mais Alentejo, que me deixam ainda mais orgulhoso por estar aqui hoje.

Como trabalhador precário que sou, deu-me um gozo especial receber o prémio Gazeta Revelação 2006, do Clube dos Jornalistas.
A minha parte do dinheiro servirá para pagar dívidas à Segurança Social. Parece-me que é um fim nobre.

Não sei se é costume dedicar-se este tipo de prémios a alguém, mas vou dedicá-lo.
A todos os jornalistas precários.

Passado um ano da publicação destas reportagens, após quase três anos de trabalho como jornalista, continuo a não ter qualquer contrato.
Não tenho rendimento fixo, nem direito a férias, nem protecção na doença nem quaisquer direitos caso venha a ter filhos.
Se a minha situação fosse uma excepção, não seria grave. Mas como é generalizada - no jornalismo e em quase todas as áreas profissionais - o que está em causa é a democracia.
E no caso específico do jornalismo, está em risco a liberdade de imprensa.


Obrigado,
João Pacheco

domingo, setembro 30, 2007

A minha esquerda

segunda-feira, setembro 10, 2007

Madeleine

Hoje a primeira coisa que me disse um amigo Americano mal me viu foi:
"Então agora os Ingleses vão a Portugal matar os filhos?"
Ao que eu respondi com um tom a dizer "calminha, alguma decência por favor" completamente influenciado pela imprensa imparcial Portuguesa e pela imprensa Inglesa defensora da pureza das acções dos seus compatriotas:
"Calma, isto ainda se encontra tudo em apertada e inconclusiva investigação policial."
Ao que ele me retorquiu: "Eles encontraram DNA da menina retirado de restos de cadáver encontrados no carro, roupas e peluche usados pela mãe. Que queres mais? Uma fuga durante um Domingo, quando as coisas funcionam mais lentamente, depois tudo ter sido descoberto?"
"Pois, não sei..." finalizei com algum embaraço antes de rapidamente começar a falar sobre Mecânica de Sólidos.
Confesso que não acompanho a imprensa que se dedica a este tipo de notícias aqui nos EUA, mas fiquei impressionado. Eu que pensava que em Portugal nós já púnhamos o carro bem à frente dos bois quanto a este caso...

sábado, setembro 08, 2007

Marcelo Rebelo de Sousa a Presidente?

Parece que Marcelo Rebelo de Sousa considera candidatar-se a Presidente depois de Cavaco Silva ser constitucionalmente impossibilitado de continuar o seu reinado de terror.



Fica este videozinho para se perceber que Marcelo tem toda a capacidade de dar continuidade ao trabalho socialmente castrante e conservador que Cavaco Silva agora desempenha. Como se verifica neste vídeo, parece que quando era líder do psd, Marcelo pensava já ser um Cavaco. Temos um caudilho em pessoa, força Portugal.

FCP em Pittsburgh


Foi hoje que pensei estar a experimentar um momento de alucinação espontânea. Espontânea no sentido de ser resultante de altas febres que me têm assomado o corpo e a minha capacidade de pensar ou formular julgamentos em vez de no sentido de ser resultante do consumo de substâncias como aquelas que se costumavam experimentar em tempos idos na já não obrigatória inspecção militar: as substâncias ilícitas.
Vinha febril e cambaleante, de saco nas costas, a subir o corredor (sim subir, um dia explico) do Porter Hall da Carnegie Mellon University em Pittsburgh, quando vejo um rapaz com o equipamento do FCP a sorrir e a caminhar com alguma pressa. Pensei o pior do meu estado de saúde, estava certamente a alucinar. Prontamente, sem pensar, como se num sonho, decidi perguntar-lhe se era Português. Esperava todo o tipo de respostas, esperava muito mais na verdade. Por exemplo, esperava que ele me fizesse um gesto para olhar para o que se passava atrás de mim e lá se encontrassem, em pleno momento de sexo louco, Pinto da Costa a recitar poesia em Sueco e, ao mesmo tempo, a penetrar por trás uma chinesa loira a gritar " o meu pai é o Pinto da Costa, a minha mãe o Vítor Baía". Mas não, a resposta em Inglês foi "não, eu somente acho que o Oporto é o maior". Eu retorqui a sorrir, completamente inspirado pelo rumo inesperado do evento "não, o maior é o Sporting". "Que é isso, uma equipe de Inglaterra?" perguntou o rapaz com curiosidade sincera. Eu respondi com o ar convicto de quem percebe muito de bola "não, é uma equipe do País de Gales", ao que ele finalizou a conversa antes de voltar aos seus afazeres com um conclusivo e banal "ok".
Voltei para a minha bicicleta para ir para casa. Dormi a tarde toda para ajudar a curar a bronquite que me chateia a vida há mais de 3 semanas. Sonhei certamente, não me lembro, não importa...
Aos meus grandes amigos de Viseu e do FCP as minhas saudades e o reconhecimento de que o "Oporto is the best", mesmo sendo eu um sportinguista dos antigos.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Fotografia: Série nocturna

Encontrei-a nos meus sonhos de acordado. Cirandava pelas pedras da calçada evitando as surpresas dos desníveis entre paralelipípedos e ampliava eu os seus movimentos até me sair dos lábios o saltitar. Mas ela não saltitava, apenas caminhava mais célere e tentando não prolongar o toque no chão de pedra. A certa altura, quando os olhos já ardiam, eu reparei que ela judiava com as sombras, caminhando na orla esforçada de uma lâmpada amarela que pendia do alto de uma coluna fria e cinzenta. Juro que lhe ouvia o riso abafado enquanto ameaçava um passo mais ousado mas que se quedava na luz. Fui seguindo-a e o sonho foi perdendo vontade de ser, como cansaço. Abracei-a para tornar-me bela a sua confusão e segui em frente, talvez para ser sonhado.


Nuno Vieira Matos, Ourém, 2005


Nuno Vieira Matos, Ourém, 2005


Nuno Vieira Matos, Ourém, 2005


Nuno Vieira Matos, Ourém, 2005

quarta-feira, setembro 05, 2007

Polícia para quem precisa...

Um dia tinha de acontecer.

Sim, foi hoje. Foi hoje. Depois de dias horrorizado a olhar para as pantufas a destoar do pijama usado por alguns clientes de supermercados americanos, colegas de aula, passeadores de cães e afins, foi a minha vez. Acabei mesmo agora de sair à rua de pijama e chinelos para depositar uma carta no marco do correio, aquele de m pequeno, como aqueles muitos outros R2D2 pintados de azul que povoam os EUA a fazerem concorrência aos ilegais, aos imigrantes, aos não-residentes, aos afro-americanos, aos BBQs com homens brancos musculados com a namorada/sexo vazia debaixo do braço em jardins de flores e arbustos bucólicos. Aconteceu. Sem me dar bem conta do sucedido, aconteceu, reparei no exacto momento em que despejava a carta no marco. Sei que agora irei iniciar uma longa viagem de morte cerebral lenta.

Guy Burgess: White picket fences! God bless America! White picket fences and apple pie! Shirley Temple! The Ku Klux Klan! Hiroshima! Nagasaki! The CIA! White socks, Bobby socks! Rednecks! God bless America! String up those niggers! Fry them communists! God bless America, land of the free!


Quando comer com as mãos eu comunico. Quando mudar para East Liberty deixo de dar notícias, irei vender filmes porno pirata e pedir que me paguem um burger.
Fica o que estou a sentir.

Merda para esta desigualdade social, merda para estes putos ricos de Porsche e para estes rapers do bairro. Merda para estas fronteiras, merda para estes muros, merda para esta Guerra, merda para estes traumas, merda para este medo, merda para estas armas, merda para esta venda de tudo, merda para este vampirismo de fofocas e boatos...
Quero respirar.
Agito os braços freneticamente no ar, no vazio, sentado na mesa da cozinha, ao lado da janela fechada e com o estore corrido, sinto-me peixe que o deixou de ser, peixe transformado em homem nas profundezas do Oceano, longe demais da superfície para lá chegar a nado, pelo menos com o pouco ar que resta nestes pulmões debilitados, cortados, perfurados por arames de aço inoxidável, a libertarem um muco amarelo acastanhado.
Perguntei-me sobre o que fazer com o meu tempo livre. Um amigo disse-me (escreveu): escreve.

segunda-feira, setembro 03, 2007

domingo, setembro 02, 2007

Fotografia: Série sobre espaços onde não estou

Existem espaços que foram concebidos para serem preenchidos de tal forma que se transfiguram quando vazios. Acontece-me pois frequentemente ficar fascinado por essa transfiguração como que sobre aqueles lugares pairasse uma idealidade perdida, nostálgica. Não me atrevo a corromper um lugar assim (quem diz lugar facilmente derrapa para momento, sensação ou impressão). Fico-me pela exposição da película para levar um bocadinho de fascínio comigo. Torna-se normal sentir, de vez em quando, uma vontade de revisitar estes locais e assim tenho o conforto de os saber não sujeitos à decomposição.

Nuno Vieira Matos, Paris, 2006


Nuno Vieira Matos, Paris, 2006

Nuno Vieira Matos, Paris, 2006

terça-feira, agosto 28, 2007

segunda-feira, agosto 20, 2007

Fotografia: Série sobre despojos

Despojos do avanço do homem. Afunilamentos de tecnologia e recursos materiais agregados em torno de uma função que já não desempenham - tecnologia idosa. Acessos de fúria anti-entrópica que vão vagando os nossos cantos apenas até ao próximo. Sobranceira da carne pelo metal, pelo tecido, pelas próteses da nossa fragilidade. A arrogância de Deus perante a criatura leva à sua inexistência.


Nuno Vieira Matos, Linha de Sintra, 2005

Nuno Vieira Matos, Linha de Sintra, 2005

Nuno Vieira Matos, Linha de Sintra, 2005

quinta-feira, agosto 09, 2007

como ver o nosso hímen vaginal em casa

Uma pessoa fez busca no Google.pt com as palasvras " como ver o nosso hímen vaginal em casa" e este blog apareceu em primeiro na lista de sites. Lutas Livres, um blog filiado da revista Maria.

segunda-feira, agosto 06, 2007

domingo, agosto 05, 2007

Professor Romão Dias


Somente soube agora (bem tarde) ao ler o blog do Bruno Afonso.
Fica a minha Saudade e a minha Homenagem a um homem que nunca esquecerei. Deixo a notícia para os que não o conheciam.

Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.

sábado, agosto 04, 2007

De Chicago a Urbana-Champaign são 3 horas de campos de milho



Passei toda esta última semana numa workshop de Verão na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, duas cidades pequenas unidas por um campus de uma Universidade Estadual. Viajei de avião até Chicago e depois de Shuttle (carrinha para 9 passageiros) até Urbana-Champaign. De Chicago nada vi, somente uns arranha-céus ao longe a encararem de frente um lago a espelhar o azul e as nuvens cheio de barquinhos e velas. Três horas de viajem separam o Aeroporto de Chicago (O'Hare) da Universidade de Illinois e são três horas de campos de milho a ladearem a estrada de ambos os lados, um mar de campos de milho cortado por uma estrada e aqui e ali penetrado por ilhas de gigantescos silos, equipamentos de processamento de espigas de milho como debulhadoras e afins e garagens de tractores cercadas por fracas habitações construídas com materiais pré-fabricados a exibirem antenas parabólicas. De vez em quando a viatura que me transporta é ultrapassada por bandos de gordos road-runners a conduzirem Harley Davidsons ultra equipadas com múltiplos adornos. Esta é a terra do Presidente Lincoln. Vejo a América dos brancos pobres, vejo os ambientes rurais dos filmes de Domingo à tarde, mas sem me despertarem qualquer admiração. Contrariamente, todos sinais de presença humana me parecem prisões, focos de castigo e isolamente cercados por um denso mar de campos de milho. Uma hora de viajem neste mar e o podcast da entrevista ao Ministro Augusto Santos Silva por Maria Flôr Pedroso acabam por me embalar.

Acordo em Urbana-Champaign, saio do shuttle e fico alojado num quarto de uma Residência Universitária. Depois de largar as malas, passear pelo Campus, comer, correr, telefonar aos meus pais e passear mais um pouco reparei que já cumprimentava pessoas que no mesmo dia tinha visto mais de uma vez em diferentes locais, reparei que pela primeira vez valorizava Pittsburgh, uma cidade que é mais do que as suas Universidades. Agora, mais do que nunca estou bem satisfeito em estudar em Pittsburgh. Nunca pensei alguma vez me sentir assim. Lembro-me adicionalmente porque nunca me interessou ir estudar para Cidades/Universidades como Coimbra, locais onde uma homogeneidade de estilos e de modos de vida cansa qualquer ser humano passada uma semana de se lá estar. O Campus de Urbana-Champaign é muito bonito, tem muitos jardins, a arquitectura dos edifícios faz lembrar os filmes que retratam ambientes de Universidades Americanas, mas aquilo não é para mim. Os pubs e cafés passam muito bom som, mas mesmo assim não, sinto-me com muita sorte em estar em Pittsburgh.

A workshop foi interessante, aprendi muito, conheci muita gente, na maioria pessoas a trabalharem no mesmo que eu, dei o meu contacto aos quatro ventos, mas somente pedi dois contactos. Um foi de um professor Europeu muito interessante com o qual debati investigação, cinema, viajens e cultura e partilhei duas garrafas de vinho num jantar com bebedores de coca-cola e ginger ale. O outro foi da mulher mais bonita que alguma vez vi.

Volto para Pittsburgh, volto para o trabalho, para esta aventura de perceber e estudar a Natureza. Sinto-me motivado, aqui vou eu.