domingo, dezembro 18, 2005

Irão e Holocausto

Recentemente, o Presidente do Irão negou a existência de um Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial, tendo sugerido não ser mais do que um pretexto usado na validação de acções pró Israelitas. Não é nenhuma novidade este discurso, no entanto é categoricamente errado por ser baseado em premissas falsas. Não é só o número de mortos Judeus que vem nos livros, não são só os filmes de época, mas são também os campos de concentração que ainda hoje existem para se visitar e não esquecer que documentam a existência de um Holocausto bem real. Quando estive em França, reparei que na estação de comboios de Compiègne se encontrava um pequeno memorial, onde se podia ler a letras garrafais: 40000 compatriotas foram enviados desta estação para as câmaras de gás Nazis.

O povo Judeu não foi o único a ter sido exterminado durante o Holocausto, na verdade os Ciganos foram igualmente perseguidos e mortos, entre 250 e 500 mil Ciganos foram mortos durante o Holocausto. Para Hitler, Judeus e Ciganos pertenciam a raças destruidoras e deviam ser eliminadas. É verdade que, depois de 1945, ninguém se preocupou em dar terra e criar uma nação para os Ciganos.

Na minha opinião, tendo sido os Alemães culpados pelo Holocausto, o Estado Judaico devia ter sido edificado em terra Alemã, como lógica de pagamento pelos males feitos. Os Palestinianos não tiveram nenhuma responsabilidade ou acção no Holocausto, mas foram eles a pagar a factura do trauma causado e ainda hoje são acusados de Nazis sempre que se opõem ao avanço do Estado Israelita.

Mas a História está feita, 50 anos passaram depois do fim do grande conflito, pessoas têm casas onde os seus pais já nasceram, moraram e morreram, existe já uma forte identidade Israelita, não só ligada ao Povo e à Religião, mas acima de tudo ao território. À própria Alemanha já não podem ser exigidos mais pagamento pelos erros do passado, os responsáveis de então já foram punidos e as dívidas saldadas.

Mesmo se a História não se tenha desenrolado de um modo justo e favorável ao Povo Palestiniano, o que interessa agora não são as medidas que deviam ter sido tomadas no passado, mas o que se pode fazer agora de modo a se satisfazerem Palestinianos e Israelitas, evitar a Guerra, o Terrorismo e Conflitos que podem levar ao uso de armas nucleares. O Presidente do Irão falha nesse sentido, exibindo um radicalismo que lhe poderá talvez trazer popularidade e apoio no mundo Árabe, mas que irá agudizar o clima de intolerância e conflito no Médio Oriente.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Cavaco e as Mulheres

No debate político para as próximas Eleições Presidenciais, transmitido em directo pela SIC no passado dia 13 de Dezembro, Cavaco Silva respondeu à crítica a ele dirigida por Jerónimo de Sousa sobre os seus silêncios no que toca aos direitos das mulheres, dizendo que a sua mulher se ri sempre que ouve essa acusação dirigida ao seu marido. Cavaco Silva disse que em sua casa ele e a sua mulher são iguais relativamente a todos os direitos e deveres, desviando-se da crítica a ele dirigida.

Será isto uma resposta satisfatória de um homem que se considera o melhor entre os Portugueses para ser Presidente de República?

A desigualdade de direitos entre os homens e as mulheres é um problema não só do nosso país, mas do nosso mundo. Em Portugal, a herança de um Fascismo recente e a grande influência conservadora da Igreja Católica Apostólica Romana fazem deste país uma das nações da Europa onde mais a nível social e cultural a mulher é inferiorizada ao homem. Esta evidência é patente no grande nível de violência doméstica em Portugal, onde, comparando com a vizinha Espanha, com a qual partilha a mesma herança Católica e política, o número de casos de violência sobre as mulheres é enorme. Se calhar, Cavaco Silva rege-se pelo ditado popular “entre marido e mulher não se mete a colher”. Tendo esse ditado em conta, compreende-se que nas questões relativas à defesa dos direitos das mulheres, Cavaco Silva só se preocupe com a defesa dos direitos da sua mulher.

Acontece que um Presidente da República deve ser Presidente de todos os Portugueses e esses são metade homens e metade mulheres. Assim sendo, Cavaco Silva falha nas suas declarações em defender e considerar os direitos de metade dos cidadãos deste país. Acho muito bem que um Presidente da República dê o exemplo em sua casa de como as relações entre Portugueses e as Portuguesas devem ser. Acontece que isso não é nada de novo e não tem nenhuma consequência na situação das mulheres em Portugal. Já Eanes, Soares e Sampaio deram o exemplo de uma boa relação familiar e a ocorrência da violência doméstica em Portugal não deixou de se agravar consideravelmente nos últimos anos. Não me refiro a um agravamento absoluto da situação, relativamente ao que se passava há 50 anos atrás essa situação não se agravou, mas comparando com os seu parceiros europeus, Portugal é o campeão da violência doméstica.

Face à realidade do nosso país, é promíscuo um candidato a Presidente da República ignorar a urgência em agir na defesa dos direitos das mulheres, até porque ao fazê-lo está a cumprir um dos deveres do Presidente: defender e fazer cumprir a Constituição.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Distúrbios em França

De Fevereiro a Julho deste ano estive a estagiar em França numa cidade satélite de Paris, Compiègne. Uma cidade localizada na região da Picardia, a Nordeste de Paris, edificada à beira do rio Oise. Mesmo a cinquenta minutos de comboio de Paris, grande parte dos habitantes de Compiègne trabalham na capital Francesa.
A cidade não é recente, na idade média uma das estradas de São Tiago passava por Compiègne, Joana D’Arque foi aí capturada pelos Ingleses e muitos Reis de França aí foram coroados. Depois da Revolução Francesa, foi uma cidade muito frequentada por Napoleão I e Napoleão III, passando o último as suas férias de Verão no palácio da cidade. É uma cidade cheia de casarões e palacetes, cercada por uma das maiores e antigas florestas da Europa. Diz-se que Adolf Hitler, face a um inexplicável ódio de estimação por Compiègne, mandou destruir a cidade durante a segunda Guerra Mundial. Parece que a parte mais antiga da cidade foi destruída durante esse período. No entanto, Compiègne ainda mantém em algumas zonas algo de Medieval e noutras algo de Imperial.
Eu não morei em nenhuma dessas agradáveis zonas, nem tão pouco na parte reconstruída pelos Portugueses após a Grande Guerra. Morei numa zona um pouco afastada do centro e próxima do rio que durante séculos se manteve inabitada. Na minha opinião, nunca ninguém desejou, durante a história da cidade, construir no bairro onde morei porque durante o Verão os mosquitos infestam completamente o ambiente. Como se sabe, mais do que actualmente, os mosquitos sempre foram transportadores eficazes de doenças, pelo que as pessoas geralmente evitam, desde longa data, morar nos locais onde os mosquitos se encontrem em grande quantidade. O bairro onde morei era um bairro social, cheio de Franceses pobres, de descendentes de Marroquinos, Argelinos, Portugueses, Libaneses, Romenos, Ucranianos, Africanos da zona do Magrebe e muitos mais. Um bairro pobre, para pobres, mas com jardins, parques, extensas zonas verdes, campos da bola e zonas para lazer. Nada que tenha a ver os bairros sociais em Portugal, como Chelas, Baixa da Banheira, Gato Preto ou Bela Vista.
De certeza que esse bairro foi um dos que sucumbiram à violência dos jovens revoltados contra o sistema que se verificou em França. Nos tempos iniciais em que lá estive perguntava-me como é que aquilo não explodia. Não era só pelo que via, mas pelo que sofria.
Vou começar pelo que via, pelo menos pelo que me salta agora à memória. Lembro-me dos jovens desde tenra idade a serem educados sem referências que não fossem os miúdos mais velhos da rua, a verem os pais poucas horas por dia. Via miúdos de 5 anos já vestidos à M C americano a armarem porrada com os colegas e a danificarem viaturas que não tivessem o número 60 na matrícula (60 é o número da região de Compiègne). Essa actividade de danificar e roubar automóveis de gente de fora era actividade comum a miúdos de várias idades. A mim nunca me aconteceu nada, embora os miúdos andassem sempre à porrada uns com os outros de uma forma extremamente violenta, o bairro parecia tranquilo. É verdade que uma vez li num jornal que um polícia tinha sido assassinado num sábado à noite nesse bairro, mas comigo nada aconteceu.
Lembro-me de não ver actividades organizadas para os jovens, para os distrair das escolas da rua, do vandalismo e da criminalidade. Perguntei a antigos moradores se existiam tais actividades, tinha noção que tal existia em bairros problemáticos em França. Fui informado de que essas actividades já não existiam, tendo de facto existido no passado. Então fiquei a perceber as festas à beira dos carros a ouvir hip-hop e a comer MacDonalds, as destruições dos caixotes do lixo, as lutas entre zonas do bairro, etc. Eram não mais do que actividades resultantes da exposição de crianças desde tenra idade a maus ambientes.
O que sofri quando vivi em Compiègne não foi a violência dos bairros, mas o racismo ou xenofobia pelo facto de não ser Francês. Muitas das vezes que ia a uma padaria ou supermercado mandavam-me mostrar e abrir a mala e certas vezes os funcionários mandavam o segurança revistar-me. Bastava eles repararem que eu não falava bem francês. Inicialmente pensei que se calhar era consequência de eu andar com mau aspecto, por isso comecei a fazer mais regularmente a barba e a vestir-me melhor. Mas nada feito, as atitudes mantinham-se. A verdade é que só com os estrangeiros é que esse tipo de coisas se passava. Conheci um Brasileiro com sangue índio que era revistado todos os dias à entrada do supermercado até ser conhecido pelo segurança como cliente habitual. Coisas deste género também vivi em alguns cafés e pastelarias. Um dia cheguei a irritar-me de tal forma numa pastelaria que passei a frequentar uma pastelaria gerida por árabes, só para psicologicamente me “vingar” dos Franceses filhos, netos e bisnetos de Franceses.
No trabalho também se passaram alguns momentos caricatos. Um operador de equipamentos de Nanotecnologias, logo no primeiro dia que trabalhou comigo, depois de me ter perguntado se em Portugal havia paludismo, disse-me que eu devia ir para a minha terra, que nós os Portugueses só sabíamos ocupar o trabalho dos Franceses. Eu bem lhe tentei explicar que o meu estágio não era remunerado, mas mesmo assim ele continuava a tecer comentários para mim desagradáveis. Outros colegas de trabalho perguntavam-me se em Portugal as crianças eram ensinadas desde muito novas a arte da construção civil. Alguns contavam-me anedotas sobre os Portugueses, daquelas que consideram os Portugueses uns atrasados mentais.
Nos seis meses que passei em Compiègne, morei com um rapaz de Paris, um rapaz que estudava na Universidade onde estagiei. Quando desabafei com ele as minhas experiências com os Franceses xenófobos, o rapaz explicou-me que os Franceses do Norte de França são mesmo assim. Até são xenófobos em relação aos Franceses de Paris e de outras cidades do Sul, disse-me ele. Tal informação em relação aos preconceitos gerais sobre os Franceses da zona onde estava não me acalmou, muito pelo contrário, deixou-me irritado durante alguns tempos. Pelo menos até eu ter conhecido gente simpática daquela terra, na verdade nem todos foram racistas e xenófobos, principalmente quando tinham alguma formação e cultura.
Os tempos em França passaram, voltei a Portugal, ao país onde supostamente nunca me excluíram, à minha terra. Este relato acaba com um passeio durante uma tarde num dia solarengo pela baixa de Lisboa. Ia para atravessar uma passadeira quando uma senhora de ascendência Africana se encontrava já no meio da estrada. Um carro parou à sua frente e o grupo de jovens que se encontrava dentro do veículo começou a gritar, imitando o sotaque Africano, “ó macaca, sai da frente, volta para a selva macaca”. Nesse momento sabia perfeitamente o que a senhora estava a pensar. Filhos da puta há em todo o lado e se um dia acontecer em Portugal o que se passou recentemente em França, a culpa será desses filhos da puta e não dos estrangeiros, dos imigrantes ou dos partidos de esquerda benevolentes.