domingo, novembro 27, 2005

Frango, Peru e Baltazar

Na última edição da revista Visão encontra-se uma entrevista a Miguel Cadilhe, onde este se refere a Cavaco Silva como sendo “como um eucalipto, que provoca aridez à sua volta”. Lembrei-me então de uma pequena notícia que li a 28 de Maio de 2005 no sítio do jornal Público. Encontra-se de seguida esse artigo. Não percebo bem se as declarações de Cadilhe irão dar ou tirar votos a Cavaco. Portugal está sempre a surpreender-me. Defendendo o que defende ideologicamente, se o eleitorado do PSD alguma vez tivesse levado Cavaco a sério, este nunca teria sido Primeiro Ministro. É o que acontece quando se elegem encenações em vez de pessoas capazes. Mas um ponto fica claro nesta notícia, lá se vai o mito de Cavaco ser um grande profissional do firmamento económico português. Para além de já ser mais que senso comum o conhecimento da sua aversão relativa à Ciência, à Literatura e à Arte, para não falar do seu constante afastamento no que toca a comentar o mais simples problema do país que se afaste das temáticas dos textos da sua cassete, eu pergunto–me sobre o que será Cavaco que não seria com igual qualidade um velhinho senil num lar de terceira idade? Um velhinho bem encenado, claro.

Notícia:

Novo Sistema Retributivo da Função Pública
Função pública: Miguel Cadilhe responsabiliza Cavaco Silva por aumentos que agravam défice
O antigo ministro das Finanças Miguel Cadilhe, responsabiliza Cavaco Silva pelo aumento da massa salarial da função pública, promovido nos anos 1990, que hoje é responsável por 15 por cento do Produto Interno Bruto (PIB). Cadilhe, num artigo para o livro colectivo "Cidadania, uma visão para Portugal", recorda aquilo que o ex-primeiro-ministro social democrata já admitia na sua "Autobiografia política".
Cadilhe escreve, segundo cita hoje o "Expresso", que "os trabalhos preparatórios do novo sistema retributivo da função pública (...) correram sob a responsabilidade directa de Cavaco Silva", referindo-se aos alicerces do Novo Sistema Retributivo da Função Pública que colocou a administração pública portuguesa no terceiro lugar entre as mais caras da Europa.

O sistema foi aprovado em conselho de ministros em 1998, recorda Miguel Cadilhe, no qual o ministro das Finanças se mostrou preocupado. De acordo com as palavras citadas pelo semanário, o então ministro terá tentado precaver problemas futuros impondo condições para a aplicação do novo sistema, nomeadamente a redução de despesas e melhoria de produtividade.

Cadilhe não hesita em denunciar que o Governo não deu sequência às suas propostas e conclui que isso "teve efeitos avassaladores" nas despesas estatais. O ministro escreve que o caso "foi uma demonstração de como uma importante e justa reforma pode ficar a meio do caminho, derrapar e virar-se contra o reformador".

O "Expresso" escreve em manchete que Cadilhe acusa Cavaco de ser pai do "monstro" do défice, um dos epítetos pelos quais ficou conhecida a dimensão da ruptura das contas públicas portuguesas.
PUBLICO.PT (28 de Maio de 2005

domingo, novembro 20, 2005

Salazar e Franco

É verdade que já há algum tempo não escrevo por estas bandas. Acontece que a preparação para uns exames que se aproximam me tem tirado a disponibilidade e a vontade de aqui escrever. Mal acabem esses exames, a situação vai mudar.
Muito se tem passado no mundo e no país que merece reflexão, crítica, ou mesmo só divulgação.
Fica por agora só isto:
Acabei de ver um documentário na RTP sobre a relação política existente entre Franco e Salazar. A quem não viu, recomendo vivamente.
Há cerca de uns anos estava na moda advogar a tese de que Salazar teria sido um anti-fascista. Desde declarações em televisão do Professor Saraiva, passando por uma aula de Introdução ao Direito que assisti na Lusíada e acabando em palavras ouvidas pela boca de Adriano Moreira numa conferência, muitos tentam hoje em dia mascarar os crimes de Salazar e do seu regime. Se por vezes a História é parcial, o verdadeiro e bem documentado relato dos factos tende a ser mais verdadeiro. E é verdade que não só um grande número de prisioneiros políticos, mas muitos militares portugueses e civis espanhois sucumbiram às políticas de tiro certeiro de Salazar.
As vítimas mortais do fascismo ibérico foram muitas e as circunstâncias dessas mortes revoltantes. Como é possível o fascismo ser ainda defendido por muitos cidadãos deste país?

domingo, novembro 06, 2005

Domingo Sunday

Hoje estava tanto vento que as folhas chegavam ao nosso terceiro andar. Abri as janelas todas para arejar a casa, e algumas entraram em casa.

Quando fui tomar café à Walnut, uma folha chocou-me na cara, e outra no peito, foi engraçado. Esteve sol e depois choveu e depois fez sol outra vez, mas sempre com muito vento.

Bebi café enquanto li o Lunário, e estou a gostar. Os tipos estavam a passar Mariza outra vez (acho que eles gostam mesmo daquilo), e eu ofereci-lhes um CD com música portuguesa, mas não sei se o gravei bem. Se não para a semana levo-lhes outro.

Pensei muito em ti hoje. O tempo é tão curto, o tempo de uma vida, passa a correu, não o conseguimos apanhar, não é?

Para mim não faz sentido estarmos longe. Vou mudar a viagem para ir para aí mais cedo.

Um dos teus embrunhos chegou. Abri com cuidado. Era um beijio enviado da estação de Nelas. Recebido e confirmado. Já recebeste o meu embrunho? Deve bater-te à porta do quarto daqui a pouco. Quando estiveres quase a dormir.

Amo-te.

I love you

Por onde voei levei-te sempre comigo, meio em saudade, meio por seres uma parte doce já bem dentro de mim. Por Lisboa olhei de fugida o rio e os prédios grandes, estava de corrida para as Berças. O Tejo em jeito de mar assustou-me.
Entrei num Comboio e fiquei até Nelas a fazer embrulhos de beijos com todas a camadas verdejantes que começam a cobrir as terras queimadas no Verão. Assim que chegar outra vez ao teu lado, dou-te esses embrulhos e passamos umas horas a abri-los. Depois...
Depois continuamos, e tentarei evitar o grande disparate que é estar longe de ti. Entretanto, voltarei a Lisboa para a fotografar.
Eu cá amo-te. Esta terra de Pittsburgh fica sem piada quando tu não estás cá. As cores de Outono são as mesmas, o vermelho é lindo nas árvores e há imensas folhas a voar, tu sabes. A nossa casa parece mais escura e mais fria. Volta depressa.

Agora estás a voar, no meio do oceano. É noite, deves estar a ver um filme dos que eles passam nos aviões. Será que vais estar acordado quando o sol nascer?

Espero que chegues bem a esse lado do mundo. Dá um abraço a Lisboa por mim. Tira fotos a Lisboa e manda-me, se tiveres tempo. Eu faço o mesmo com o Outono em Pittsburgh.

Até já.

quinta-feira, novembro 03, 2005

Os Liberais

Numa conversa com o meu amigo Nuno Teles Sampaio, ele disse-me que o lugar da esquerda nos Estados Unidos da América (EUA) está ocupado pelos Liberais. De facto é estranho tal acontecer, principalmente quando se verifica que quem ocupa o lugar da esquerda em Portugal se demarca aberta e claramente das novas tendências políticas Liberais que renascem tardiamente neste país.
Ao chegar aos EUA, tentei informar-me, sem grande urgência, se tal era verdade. Para tal, para além de ler o New York Times com alguma assiduidade e a revista Time quando num Cabeleireiro em Nova Iorque, conheci um café em Pittsburgh, na Wallnut Street. Aí, pessoas assumidas de esquerda encontram-se aos Sábados de manhã para debaterem temáticas políticas. Não se encontra ninguém conhecido, nem de carreira política, a gente ronda a idade dos trinta, encontram-se mais homens que mulheres. Fiquei sempre à parte dessas “tertúlias”, ou a comentar o que se falava numa conversa à parte com a Inês, ou a mexer no portátil com ar ocupado, mas sempre a ouvir o que se ia discutindo. Destas experiências de leitura e de escuta cheguei à conclusão que o lugar da esquerda, onde quer que seja, é ocupado por quem tem uma atitude subversiva e revolucionária em relação ao sistema dominante, nunca por quem defende uma política específica. Se essa política não se apresenta contra o sistema de uma forma revolucionária, não é de esquerda.
Os Liberais nos EUA são a esquerda por várias razões, mas de um modo geral porque são liberais em relação a tudo, não só às questões relacionadas com o livre mercado e a economia, como acontece com os Liberais portugueses. Ao serem a favor da livre concorrência e contra as restrições impostas pelo Estado no mercado, são contra o sistema americano. Por exemplo, o facto de se assumirem contra leis proteccionistas da indústria e comércio de automóveis de marca nacional, faz dos Liberais americanos indivíduos contra um dos maiores Lobbys com mais influencia na política dominante americana. Mas não se ficam pela economia, assumem-se por exemplo a favor de casamentos entre homossexuais, a favor de uma sexualidade livre, contra a intervenção americana no Iraque, a favor da liberalização das drogas, a favor da descriminalização da prática abortiva, contra as restrições à investigação com células estaminais embrionárias, contra leis que se apliquem com invasão da privacidade de um indivíduo, contra qualquer medida em todo o plano de actuação política que prive o ser humano da sua liberdade.
Compreendo assim que ocupem o lugar da esquerda, visto defenderem muitas causas também defendidas pela esquerda portuguesa e que se apresentam revolucionárias no sistema em causa. Embora eu seja de esquerda, não posso dizer que sou Liberal porque, contrariamente a esta corrente, defendo as medidas de protecção do ambiente e acredito na existência de organismos do Estado, como a Saúde, a Educação e a Segurança Social, como entidades de prestação de serviço público, em vez de empresas com a Meta de terem lucro. Também tenho a opinião de que o mercado anárquico, sem algumas linhas orientadoras de restrição para controlo da sua acção na Estabilidade Social, provoca no Mundo a incidência em situações que agridem a Sociedade, o bem estar do Homem, ou aumentem a Fractura Social entre Ricos e Pobres. Mas, em tudo o resto assumo-me Liberal. Mas obviamente, para se ser Liberal ou se é por inteiro, ou não se é, logo eu seria desonesto de me assumisse como tal.
É um pouco isso que vejo nos Liberais em Portugal, pessoas que se assumem como Liberais, mas que só o são nas temáticas que lhes dá jeito politicamente, mas no resto não. Liberais desonestos ou falsos Liberais, como eu. Como eu, mas por razões diferentes das minhas, razões que dão jeito à Direita.
Se por um lado existe um CDS-PP e um PPD-PSD que se assumem como Liberais em termos económicos, o primeiro assume-se Conservador em tudo o resto e o segundo assume-se conforme o líder do momento, mas nunca Liberal por inteiro. Agora Marques Mendes apela ao emagrecimento do Estado, à necessidade de privatizações e concessão de Gestão Privada a muitas entidades e instituições de utilidades pública. Isto é ser um pouco Liberal, mas não chega, se Marques Mendes é liberal por isto, eu também o sou por defender outras políticas liberais que este rejeita sem pensar duas vezes: o aborto, a livre entrada de têxteis chineses, a liberdade sexual, etc...
Como exemplo, na esquerda, à excepção do Bloco de Esquerda, a esquerda dominante é a favor do embargo aos têxteis chineses para a protecção da indústria portuguesa. Mas verdade seja dita, não é só a esquerda, mas quase todo o espectro político, incluindo aquela parte que se assume Liberal em termos económicos.
Vejo os Liberais em Portugal com uma atitude muito diferente dos que vejo nos EUA. Enquanto neste, eles assumem uma atitude revolucionária e contra o sistema, em Portugal eles, sejam ou não Liberais por inteiro, têm uma atitude reaccionária no plano de acção política nacional. Apoiaram José Sócrates, apoiam agora Marques Mendes e Cavaco. Embora se assumam como um grupo elitista e minoritário, também se assumem a favor do sistema, contra as temáticas revolucionárias, como consequência não causam moça nem comichão. Embora afirmem ser contra o sistema, acabam sempre por apoiar os partidos e os políticos que não os representam e que deles discordam politicamente. Diria mais, que os Liberais em Portugal se preocupam mais em atacar a esquerda do que em divulgar e lutar pelas suas ideias políticas.
Será que há Liberais em Portugal, ou pessoas de Direita que se identificam só com algumas ideias Liberais?