segunda-feira, outubro 31, 2005

Cavaco Silva por Mário Soares

Recomendada por um amigo, fui ler uma entrevista feita a Mário Soares pela altura da comemoração dos seus 80 anos, muito antes de ele considerar ser outra vez candidato a Presidente da República. Verdadeiramente, o teor da entrevista revela Mário Soares como um retirado da política. É extremamente honesta e sem artifícios de valorização política para qualquer luta pessoal, é uma entrevista de memórias sinceras.
Gostei de ler sobre Cavaco Silva aquilo que eu também acho dele:

“Tenho respeito por eles todos, incluindo o Cunhal. O Cunhal é de uma inteligência superior e de uma grande cultura, não só marxista-leninista. Mas é um tipo com talas, só vê aquilo que quer ver e não sai dali, uma teimosia enorme, não reconhece o erro, está convencido que o mundo todo errou e que ele é que está certo. Vai morrer assim. Talvez seja bom para ele, e até ficávamos desiludidos se ele agora aparecesse a dizer que se tinha enganado. O Freitas do Amaral é um grande jurista, um homem inteligente, um grande político, um homem de bem. O General Eanes é um militar, prestou grandes serviços na altura em que foi preciso normalizar as Forças Armadas, é um homem de uma grande seriedade, não é um homem de uma grande cultura. O Cavaco é um homem extremamente sério, honrado, competente na sua esfera que são as finanças e a economia. Mas não é um homem com uma grande cultura política, nem sequer literária. É muito profissional, no sentido americano do termo: sabe tudo da asa da mosca, mas não sabe mais nada, como dizia o Eça de Queirós.”

Presidenciais (VI)

Agora que Cavaco já quebrou o seu círculo de segredos e se assumiu de vez como candidato a Presidente da República, Soares já começou a puxar o candidato Social Democrata para a arena de campanha. É interessante reparar que, por vontade de Cavaco, a sua campanha continuaria na pasmaceira da construção do mito à volta do enaltecer da sua personalidade, sem debates, sem respostas directas a questões, sem ideias concretas, sem imagens reais, sem o circular de informação, ou seja sem transparência.
Se o Governo de Cavaco se pautou pela ausência de transparência e pela encenação, por parte de algumas emissões da RTP da altura, de uma imagem de grande e carismático estadista, a sua campanha para Presidente da República está a seguir o mesmo caminho.
Ao se aceitar o afastamento de Cavaco Silva de uma normal actividade de campanha para PR, das duas uma, ou se aceita por discriminação positiva, como se concede a pessoas com deficiências numa data de circunstâncias, apresentando assim Cavaco algum problema físico ou mental que o incapacita de fazer campanha, ou Cavaco não é um homem mas sim um autómato político já programado, com uma rotina de campanha inalterável, previamente definida. Visto que a monarquia já findou neste país, não podendo ser Cavaco um Rei para se comportar com tal desprezo, será antes um desabilitado ou um computador? Neste último caso, quem o programa?

sábado, outubro 29, 2005

Os Profissionais e a Televisão

Durante os momentos de crise do Governo de Pedro Santana Lopes e durante as últimas Eleições Legislativas, as televisões de conteúdo geral, como a SIC, RTP 1 e TVI, e as televisões de conteúdo noticioso, como a SIC Notícias e a RTP N, bombardearam as suas emissões com curtas entrevistas a Economistas Profissionais.
Estes apareciam normalmente de óculos e ar sério, todos bem aprumados num fato à trabalhador de uma empresa de consultoria com um nome estrangeiro, como Johnsons, Anderson’s and Brothers Consulting ou algo do género. As suas vozes sérias e bem timbradas concediam-lhes um ar imparcial e analítico. Ninguém lhes conhecia as caras ou os nomes, mas apareciam como especialistas, peritos científicos para avaliar o impacto das medidas de Governos no estado da economia Nacional.
E então os imparciais jornalistas perguntavam com ar preocupado como um doente de cancro pergunta a um médico quanto tempo lhe resta: Que medidas deverá um Governo tomar para melhorar o nosso estado da economia? Aí vinha sempre a mesma resposta, medidas impopulares: desinvestimento no sector público, despedimentos de sectores da função pública e privatizações de Património do Estado. Não falavam de uma Reforma Fiscal para obrigar os que não pagam impostos a pagar, não falavam em cortar nos salários elevados, nas bonificações e regalias dos Altos Funcionários do Estado. Não falavam eles nem os políticos e cidadãos que vivem do problema e não das soluções. Também não falavam no investimento em Educação e no apoio ao desenvolvimento de novas tecnologias e projectos empreendedores. Quem veio falar nisto tudo foi José Sócrates, um pouco inspirado pelas evidências do país, um pouco inspirado pelo agora Secretário de Estado Manuel Heitor. Diga-se de passagem que veio falar, mas pouco ainda se viu a fazer nesse sentido, a não ser fogo de vista.
Voltando aos profissionais analistas do estado da Economia Nacional. Estes debitavam na tv as suas sugestões científicas para um Governo agir e tudo ficava no tom do está provado cientificamente que isto deve ser feito assim. O Povo ficava assim informado por peritos sobre o discurso que deveria ter um candidato a Primeiro Ministro.
Reprovo a atitude das cadeias de televisão em terem divulgado declarações destes economistas como sendo imparciais e não políticas. Contrariamente à Engenhara Civil, que pode dizer exactamente se uma ponte vai abaixo ou não, ou a outro ramo exacto de acção científica, a Economia é uma ciência não exacta, está inserida nas Ciências Humanas. Isto quer dizer que, como em Sociologia, para um mesmo problema ou caso de estudo, podem haver várias interpretações e soluções igualmente válidas, tendo em conta as mesmas premissas económicas. Ao dogmatizarem as opiniões em uníssono destes Profissionais Economistas, as cadeias de televisão fizeram campanha política por quem defende as ideias expostas. Ao se exporem estas opiniões isoladas e deste modo, estes economistas estão a ser objecto de propaganda política.
É pena, nos dias de hoje, as cadeias de televisão quase nunca passarem as duas faces da moeda que noticiam. Assim acontece.

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro"

quarta-feira, outubro 26, 2005

Presidenciais ( Uma Perspectiva)

O melhor texto que li até agora sobre o actual estado e expectativas da Campanha para as Eleições Presidenciais. Na Bicicleta.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Presidenciais ( V )

Cavaco Silva vai apresentar hoje a sua candidatura, tendo já dito que se apresenta “como um factor de estabilidade e esperança”.
A palavra da moda na política nacional durante o final da Legislatura levada a cabo por Santana Lopes era SERENIDADE. Todos os políticos viviam um estado de alma em plena serenidade, tomavam as suas decisões com serenidade, ponderavam os problemas com serenidade e as soluções eram apresentadas em plena serenidade. O uso excessivo dessa palavra não ficou só pelo Governo de então, passou pelo discurso de um conjunto de declarações à sociedade civil por parte de quem se dirigisse a ela. O excesso de serenidade até chegou ao Palácio de Belém, floreando os discursos de Jorge Sampaio.
A palavra da moda nesta legislatura, mas lançada por Marques Mendes, é SERIEDADE. Para o bem Nacional, não só as declarações, as decisões, as ponderações, as soluções, as campanhas, os pequenos almoços têm de ser tomados com seriedade, mas para Mendes, só os senhores do PSD e uns quantos coligados do CDS-PP têm seriedade, o que resta do país ele deve considerar um bando de palhaços, perturbados mentais ou acéfalos. A realidade real mostra que isso não é verdade e o bom senso e a lógica também. Pergunto-me é se não serão Marques Mendes e Cavaco Silva, o ressuscitado arauto laranja, que sofrem de falta de seriedade e consideração pelos portugueses?
Estou certo de que cada vez mais nos dias de hoje as aparências iludem e ninguém desfaz a ilusão causada por elas. Não tenho dúvida de que Mendes e Cavaco têm um ar sério, um timbre de discurso sério, um sorriso metálico sério, um caminhar sério e se acompanham de personalidades igualmente banhadas em seriedade. Então e as palavras, as políticas, o que se faz e que se fez? Não são essas acções, mais do que as aparências e o marketing, que definem a seriedade de uma pessoa?
Mendes abandonou o PSD e suas funções partidárias no decorrer das acções dos últimos dois líderes laranjas e age como se o que daí resultou não tivesse existido. Que seriedade tem um líder de um partido que não reponde pelo passado, presente e futuro desse partido? Que seriedade tem o presidente do PSD ao pautar o seu discurso de campanha nas últimas Eleições Autárquicas na base do insulto e da calúnia pessoal? É verdade que não o fez no timbre de uma peixeira do Bulhão, é verdade que usou a sua colocação de voz à Margaret Thatcher, mas será esse o destino da seriedade na política nacional, agir como um carroceiro sem princípios, mas com um tom sério e salazaresco? Na minha opinião a diferença entre Marques Mendes e Valentim Loureiro é a forma e não o conteúdo.
Quanto a Cavaco Silva, o seu manchado passado de há dez anos hei de lembrar futuramente, mas presentemente já há que baste. Hoje vai apresentar a sua candidatura para Presidente de República no Centro Cultural de Belém. Apresentar depois de já se ter feito uma campanha silenciosa e desleal à sua volta, depois de já ter registado o sítio da Internet www.cavacosilva.pt, depois de ter anunciado aos seus cidadãos de primeira, como Ribeiro e Castro, a sua candidatura, depois de ter desrespeitado os seus cidadãos de segunda, que lhe vão dar o voto, a desviar o assunto da sua candidatura em declarações, a desvalorizar qualquer anúncio claro, transparente e honesto, em detrimento dos seus jogos de reputação incerta nos bastidores. Que seriedade tem um homem que ao ser apresentado por Nuno Morais Sarmento como um Presidente para governar a partir de Belém, admite o estado de crise do país e a urgência de actuação contra essa crise, mas está longos meses mudo para os Portugueses, a fingir-se fechado e atarefado de mais para o país no seu meio de elite universitária? Isto é seriedade, desrespeitar a informação aos portugueses, colocar figuras menores a fazer o seu trabalho sujo, não se assumir por inteiro, de frente à população que quer Presidir?
No outro dia ouvi na Antena 2 um documentário que me lembrou este Cavaco Silva, era sobre o modo como Salazar tinha agido na Campanha para Presidente da República do General sem Medo. Todas as suas escondidas acções políticas de então me lembraram agora Cavaco Silva. Mas Salazar era mais honesto, publicamente assumia valorizar que o Povo fosse bruto, ignorante e que nada soubesse do que acontecia nas esferas do poder. Aí ouvi o seu discurso conclusivo, após efectuado o escrutínio eleitoral. Nele ele dizia algo do género: “Alguns eventos tentaram abalar a calma (..) mas a minha fria serenidade e seriedade a que vos tenho habituado não foi abalada”. Que seriedade teve o maior assassino da História Portuguesa?
Estas eleições são um teste. Nelas se vai testar se as raízes do salazarismo ainda sustentam o panorama político e social deste país à beira mar plantado.

Presidenciais ( IV )

Já há uma página da Internet destinada à candidatura a Presidente da República de Francisco Louçã.

quarta-feira, outubro 19, 2005

terça-feira, outubro 18, 2005

É notícia hoje

No Público Online Última Hora de hoje vem anunciado que “Teerão enviou queixa ao tribunal iraquiano que vai julgar ex-ditador”, “Irão quer Saddam julgado pela invasão do país”. É interessante lembrar que o Governo Americano de então esteve envolvido até ao pescoço no apoio a Saddam nesta guerra. Como o mundo muda!

Presidenciais ( II )

No anterior texto aqui publicado cometi o grave erro de não me ter referido a Jerónimo de Sousa, candidato apoiado pelo PCP. Foi um erro inocente e espontâneo mas que eu compreendo muito bem. A meu ver, este é o candidato mais fraco, não no sentido dos votos que pode vir a ter, mas no sentido do que a sua candidatura representa. Na prática, a sua candidatura existe e vai até ao fim, sem abdicar a favor do candidato da esquerda que demonstrar mais força, por causa do Bloco de Esquerda. A imagem de ver simpatizantes comunistas a darem o seu voto ao BE deve ser algo que o aterroriza. É portanto uma candidatura forçada pelas circunstâncias e não de convicção.
Jerónimo de Sousa é um comunista ortodoxo e foi um dos membros do Comité Central responsável pela expulsão ou afastamento de vários militantes do PCP que demonstravam opiniões de acção política divergentes da linha orientadora do Partido. Como Cavaco, arquitecta à sua volta uma imagem muito diferente do que verdadeiramente é. Centra-se no valor das suas raízes proletárias e na sua negação às riquezas materiais em favor dos valores e princípios do Comunismo. Se Cavaco deseja passar por um D. Sebastião salvador da pátria, Jerónimo deseja passar por um São Francisco que se imiscui com a raia miúda e que se valoriza através dela. Mas na verdade foi um frio carrasco quando se cortaram cabeças a seus camardas históricos do PCP.Ao suceder a Carlos Carvalhas, Jerónimo nada tem mudado na linha dura ideológica do PCP, mas tem mudado o modo de acção política do partido. Ao se ter apercebido que o seu sentido ideológico se encontra esgotado e desacreditado, Jerónimo de Sousa tem enveredado pelo populismo inconsequente. Populismo esse que lhe tem dado uns votos, mas que na minha opinião é estéril e tem corrompido irreversivelmente os alicerces políticos deixados por Álvaro Cunhal no PCP. Esse sim, um homem sério e verdadeiro, que tendo mais potencial populista que Jerónimo, nunca o usou, do qual eu ouvi dizer pessoalmente: podem discordar de mim em relação a tudo, mas nunca de eu não dizer a verdade e ser verdadeiro. E isso a História demonstrou ser verdade.

Presidenciais ( I )

As Eleições Presidenciais aproximam-se. O ressuscitar, assumido ou não pelo mesmo, do Prof Cavaco Silva nas lides da política activa também me ressuscitou na memória do Viseense que sou um conjunto de eventos, declarações e imagens, que andavam adormecidas no meu subconsciente desde a altura em que o Eng António Guterres já não podia desculpar más performances políticas do seu Governo com más condições de governabilidade deixadas pelo seu antecessor. Isto de um Primeiro Ministro falar mal do Governo anterior para desculpar os seus erros ou medidas impopulares não foi moda lançada pelo Dr Durão Barroso.
A verdade é que as memórias da política cavaquista de há dez anos e o turbilhão político que se vive actualmente à volta das Presidenciais obriga-me a dedicar grande parte dos próximos escritos publicados neste Blog aos candidatos e à campanha que se vive e se avizinha.
As Eleições Presidenciais vão ser disputadas, até ao momento, entre quatro candidatos de esquerda e um de direita, cinco ao todo, pelo que não devo cair no erro de me centrar numa crítica privilegiada a um só, mesmo tendo eu vivido em pleno Cavaquistão durante o cavaquismo. Já bastam as televisões e as rádios a bipolarizar estas eleições em duas personagens: Cavaco Silva e o candidato de esquerda que conseguir ir a segunda volta. Devo referir antes de mais que o meu candidato é o Prof Francisco Louçã, não só por simpatizar com ele em termos partidários, mas principalmente por ser ele o único dos cinco que tem a noção dos actuais problemas do país sem se focalizar somente numa temática conforme a sua especialidade académica, profissional ou política. A sua candidatura vai de encontro a uma pluralidade de temáticas que urgem discussão em Portugal.
Os candidatos apresentam todos bons currículos.
Manuel Alegre, um homem da literatura e da política nacionais, uma pessoa íntegra que soube sempre cumprir com os seus deveres e obrigações em todos os cargos que cumpriu. Lembro-me do caso da sua participação no processo de discussão sobre a Co-incineração em Souselas. Na altura Manuel Alegre era deputado do PS por Coimbra e soube manter-se ao lado da vontade dos cidadãos que representava, posicionando-se contra as tendências do seu partido e contra qualquer evidência científica que viabilizasse a co-incineração em termos ambientais. Em decisões políticas, para Manuel Alegre primeiro vêm as pessoas do seu país, depois o PS e só depois ele mesmo. É um homem totalmente virado para a esquerda, um homem transparente, sem segredos, que nunca meterá o Socialismo na gaveta em troca de nada.
Meter o Socialismo na gaveta remete o texto obviamente para Mário Soares, histórico fundador do PS, histórico combatente antifascista, antigo Primeiro Ministro, antigo Presidente da República. Um homem frontal, mas não tão transparente como Alegre. Um veterano nas campanhas para cargos políticos e também a vencê-las. Depois do 25 de Abril,ao contrário dos outros candidatos, Mário Soares teve sempre uma presença mediática forte, mesmo depois de ter sido Presidente da República e fora do âmbito das campanhas do PS. Participou em programas de televisão, em eventos culturais, em comemorações nacionais. Isto para não falar dos livros que já escreveu. Ao contrário de Alegre, pactuou com a Direita quando tal foi necessário na sua conquista de poder e reconhecimento. Em oposição a Cavaco Silva, Mário Soares nunca teve a necessidade de se afastar da vida pública para limpar a sua imagem política e recuperar forças para voltar à acção no cenário político-partidário. Talvez seja essa a sua maior desvantagem nesta sua candidatura, uma presença já farta e demasiada na consciência e memória dos portugueses, mesmo que sendo por coisas boas. É inevitável tal não acontecer num país corroído por um pessimismo e sentimento de descrença contra as figuras políticas de relevo do presente, como sempre foi Mário Soares, um político do presente.
Cavaco Silva, um homem mais novo que Soares, mas mais a viver do passado, do passado encenado através das fabricadas “memórias das glórias” da altura dos fundos comunitários da UE. Altura em que havia dinheiro a entrar em Portugal. Um homem fechado, obscuro, nada transparente, um homem que esconde muito do que é. O único de todos os candidatos que mais apoio e tempo teve em construir uma imagem limpa e que melhor estratégia teve para o fazer. Não só se refugiou para o fazer sem alaridos, como o fez durante dez anos, tempo mais que suficiente para a fraca memória dos portugueses esquecer o estado deplorável em que se encontrava a sua imagem política na altura em que se afastou e ,mais importante, a sua governação como Primeiro Ministro. Talvez sabendo que os portugueses se fascinam com os mitos, Cavaco soube sempre agir de modo a mitificar o seu nome. Lembro-me por exemplo da desculpa que inventou para se ter tornado líder do PSD, comprou um automóvel e aproveitou o Congresso do PSD na Figueira da Foz como pretexto para fazer uma rodagem do veículo. Eu pessoalmente não acredito nisso, Cavaco é de todos o que melhor joga nos bastidores, fora das câmaras, dos microfones e das revistas, sempre o mostrou fazer muito bem. É um homem calculista e frio com a determinação de cultivar na psique dos portugueses uma imagem sua de “Homem Determinado Pela Fortuna do Destino” a ser o governante e presidente do país, contra os seus desejos, mas pela obrigação de lutar pela pátria, mesmo que para isso tenha que desistir do que tanto ama, ensinar.
Francisco Louçã, indiscutivelmente um homem de esquerda, mas virado para todos os portugueses e para os seus problemas. Quando Cavaco é tão bem citado por Marcelo Rebelo de Sousa por ser o economista que Portugal precisa na Presidência da República para arranjar o país, eu só me lembro do currículo académico brilhante de Francisco Louçã na área da economia, ainda em tão relativa tenra idade. Louçã e Cavaco formaram-se ambos na mesma Escola (Instituto Superior de Economia e Gestão) e ambos lá leccionaram. Actualmente Louçã continua a exercer a actividade de docente nessa Escola, enquanto que Cavaco a exerce na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Em comparação com Louçã quando tinha a idade deste, Cavaco tinha um currículo muito mais fraco do que agora apresenta o candidato do BE. O talento de acção política de Louçã extravasa o plano da economia. De facto tem-se revelado o mais plural de todos os candidatos nos diferentes campos de acção política nacionais. Tem como desvantagens a sua juventude e falta de apoio de um grande partido. Na verdade, Louçã fez mais e deu mais imagem ao BE do que o BE fez ou deu a Louçã. Louçã é por isso um homem do país, virado para todos os portugueses e não um produto de gestação partidária.

domingo, outubro 16, 2005

Início

Estou nos Estados Unidos da América. Ontem falava com a Inês e ela disse-me que o conceito de liberdade neste país é diferente do conceito Europeu. Aqui um indivíduo ao ser livre também é absolutamente responsável por si mesmo, não sendo nenhuma entidade pública ou privada obrigada a ter qualquer atitude de apoio numa altura de necessidade desse indivíduo.
Num cenário deste género só se imagina o apoio e ajuda a pessoas necessitadas através da caridade. Isso explica em parte o fenómeno Katrina em Nova Orleães. Um outro exemplo que a Inês deu para explicar este conceito foi uma medida da altura da Administração Reagan, em que se fecharam muitas instituições de tratamento psiquiátrico pelo simples facto de toda a gente ter o direito de ser livre "in the land of the free". Claro que o Estado também deve ter cortado imenso na despesa pública com esta medida, mas quem estabelecesse tal ligação maquiavélica nessa altura seria acusado de Nazi Comuna Vermelho e Traidor da Nação.
Normalmente eu enviaria esta mensagem a inúmeras caixas de correio da minha lista de contactos pessoais, agora esse tempo chegou ao fim. As pessoas passam a estar livres das minhas opiniões e passagens de informação nos seus mails, passando também a estar livres de visitar este Blog.
A todos um grande Bem Haja.