domingo, dezembro 18, 2005

Irão e Holocausto

Recentemente, o Presidente do Irão negou a existência de um Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial, tendo sugerido não ser mais do que um pretexto usado na validação de acções pró Israelitas. Não é nenhuma novidade este discurso, no entanto é categoricamente errado por ser baseado em premissas falsas. Não é só o número de mortos Judeus que vem nos livros, não são só os filmes de época, mas são também os campos de concentração que ainda hoje existem para se visitar e não esquecer que documentam a existência de um Holocausto bem real. Quando estive em França, reparei que na estação de comboios de Compiègne se encontrava um pequeno memorial, onde se podia ler a letras garrafais: 40000 compatriotas foram enviados desta estação para as câmaras de gás Nazis.

O povo Judeu não foi o único a ter sido exterminado durante o Holocausto, na verdade os Ciganos foram igualmente perseguidos e mortos, entre 250 e 500 mil Ciganos foram mortos durante o Holocausto. Para Hitler, Judeus e Ciganos pertenciam a raças destruidoras e deviam ser eliminadas. É verdade que, depois de 1945, ninguém se preocupou em dar terra e criar uma nação para os Ciganos.

Na minha opinião, tendo sido os Alemães culpados pelo Holocausto, o Estado Judaico devia ter sido edificado em terra Alemã, como lógica de pagamento pelos males feitos. Os Palestinianos não tiveram nenhuma responsabilidade ou acção no Holocausto, mas foram eles a pagar a factura do trauma causado e ainda hoje são acusados de Nazis sempre que se opõem ao avanço do Estado Israelita.

Mas a História está feita, 50 anos passaram depois do fim do grande conflito, pessoas têm casas onde os seus pais já nasceram, moraram e morreram, existe já uma forte identidade Israelita, não só ligada ao Povo e à Religião, mas acima de tudo ao território. À própria Alemanha já não podem ser exigidos mais pagamento pelos erros do passado, os responsáveis de então já foram punidos e as dívidas saldadas.

Mesmo se a História não se tenha desenrolado de um modo justo e favorável ao Povo Palestiniano, o que interessa agora não são as medidas que deviam ter sido tomadas no passado, mas o que se pode fazer agora de modo a se satisfazerem Palestinianos e Israelitas, evitar a Guerra, o Terrorismo e Conflitos que podem levar ao uso de armas nucleares. O Presidente do Irão falha nesse sentido, exibindo um radicalismo que lhe poderá talvez trazer popularidade e apoio no mundo Árabe, mas que irá agudizar o clima de intolerância e conflito no Médio Oriente.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Cavaco e as Mulheres

No debate político para as próximas Eleições Presidenciais, transmitido em directo pela SIC no passado dia 13 de Dezembro, Cavaco Silva respondeu à crítica a ele dirigida por Jerónimo de Sousa sobre os seus silêncios no que toca aos direitos das mulheres, dizendo que a sua mulher se ri sempre que ouve essa acusação dirigida ao seu marido. Cavaco Silva disse que em sua casa ele e a sua mulher são iguais relativamente a todos os direitos e deveres, desviando-se da crítica a ele dirigida.

Será isto uma resposta satisfatória de um homem que se considera o melhor entre os Portugueses para ser Presidente de República?

A desigualdade de direitos entre os homens e as mulheres é um problema não só do nosso país, mas do nosso mundo. Em Portugal, a herança de um Fascismo recente e a grande influência conservadora da Igreja Católica Apostólica Romana fazem deste país uma das nações da Europa onde mais a nível social e cultural a mulher é inferiorizada ao homem. Esta evidência é patente no grande nível de violência doméstica em Portugal, onde, comparando com a vizinha Espanha, com a qual partilha a mesma herança Católica e política, o número de casos de violência sobre as mulheres é enorme. Se calhar, Cavaco Silva rege-se pelo ditado popular “entre marido e mulher não se mete a colher”. Tendo esse ditado em conta, compreende-se que nas questões relativas à defesa dos direitos das mulheres, Cavaco Silva só se preocupe com a defesa dos direitos da sua mulher.

Acontece que um Presidente da República deve ser Presidente de todos os Portugueses e esses são metade homens e metade mulheres. Assim sendo, Cavaco Silva falha nas suas declarações em defender e considerar os direitos de metade dos cidadãos deste país. Acho muito bem que um Presidente da República dê o exemplo em sua casa de como as relações entre Portugueses e as Portuguesas devem ser. Acontece que isso não é nada de novo e não tem nenhuma consequência na situação das mulheres em Portugal. Já Eanes, Soares e Sampaio deram o exemplo de uma boa relação familiar e a ocorrência da violência doméstica em Portugal não deixou de se agravar consideravelmente nos últimos anos. Não me refiro a um agravamento absoluto da situação, relativamente ao que se passava há 50 anos atrás essa situação não se agravou, mas comparando com os seu parceiros europeus, Portugal é o campeão da violência doméstica.

Face à realidade do nosso país, é promíscuo um candidato a Presidente da República ignorar a urgência em agir na defesa dos direitos das mulheres, até porque ao fazê-lo está a cumprir um dos deveres do Presidente: defender e fazer cumprir a Constituição.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Distúrbios em França

De Fevereiro a Julho deste ano estive a estagiar em França numa cidade satélite de Paris, Compiègne. Uma cidade localizada na região da Picardia, a Nordeste de Paris, edificada à beira do rio Oise. Mesmo a cinquenta minutos de comboio de Paris, grande parte dos habitantes de Compiègne trabalham na capital Francesa.
A cidade não é recente, na idade média uma das estradas de São Tiago passava por Compiègne, Joana D’Arque foi aí capturada pelos Ingleses e muitos Reis de França aí foram coroados. Depois da Revolução Francesa, foi uma cidade muito frequentada por Napoleão I e Napoleão III, passando o último as suas férias de Verão no palácio da cidade. É uma cidade cheia de casarões e palacetes, cercada por uma das maiores e antigas florestas da Europa. Diz-se que Adolf Hitler, face a um inexplicável ódio de estimação por Compiègne, mandou destruir a cidade durante a segunda Guerra Mundial. Parece que a parte mais antiga da cidade foi destruída durante esse período. No entanto, Compiègne ainda mantém em algumas zonas algo de Medieval e noutras algo de Imperial.
Eu não morei em nenhuma dessas agradáveis zonas, nem tão pouco na parte reconstruída pelos Portugueses após a Grande Guerra. Morei numa zona um pouco afastada do centro e próxima do rio que durante séculos se manteve inabitada. Na minha opinião, nunca ninguém desejou, durante a história da cidade, construir no bairro onde morei porque durante o Verão os mosquitos infestam completamente o ambiente. Como se sabe, mais do que actualmente, os mosquitos sempre foram transportadores eficazes de doenças, pelo que as pessoas geralmente evitam, desde longa data, morar nos locais onde os mosquitos se encontrem em grande quantidade. O bairro onde morei era um bairro social, cheio de Franceses pobres, de descendentes de Marroquinos, Argelinos, Portugueses, Libaneses, Romenos, Ucranianos, Africanos da zona do Magrebe e muitos mais. Um bairro pobre, para pobres, mas com jardins, parques, extensas zonas verdes, campos da bola e zonas para lazer. Nada que tenha a ver os bairros sociais em Portugal, como Chelas, Baixa da Banheira, Gato Preto ou Bela Vista.
De certeza que esse bairro foi um dos que sucumbiram à violência dos jovens revoltados contra o sistema que se verificou em França. Nos tempos iniciais em que lá estive perguntava-me como é que aquilo não explodia. Não era só pelo que via, mas pelo que sofria.
Vou começar pelo que via, pelo menos pelo que me salta agora à memória. Lembro-me dos jovens desde tenra idade a serem educados sem referências que não fossem os miúdos mais velhos da rua, a verem os pais poucas horas por dia. Via miúdos de 5 anos já vestidos à M C americano a armarem porrada com os colegas e a danificarem viaturas que não tivessem o número 60 na matrícula (60 é o número da região de Compiègne). Essa actividade de danificar e roubar automóveis de gente de fora era actividade comum a miúdos de várias idades. A mim nunca me aconteceu nada, embora os miúdos andassem sempre à porrada uns com os outros de uma forma extremamente violenta, o bairro parecia tranquilo. É verdade que uma vez li num jornal que um polícia tinha sido assassinado num sábado à noite nesse bairro, mas comigo nada aconteceu.
Lembro-me de não ver actividades organizadas para os jovens, para os distrair das escolas da rua, do vandalismo e da criminalidade. Perguntei a antigos moradores se existiam tais actividades, tinha noção que tal existia em bairros problemáticos em França. Fui informado de que essas actividades já não existiam, tendo de facto existido no passado. Então fiquei a perceber as festas à beira dos carros a ouvir hip-hop e a comer MacDonalds, as destruições dos caixotes do lixo, as lutas entre zonas do bairro, etc. Eram não mais do que actividades resultantes da exposição de crianças desde tenra idade a maus ambientes.
O que sofri quando vivi em Compiègne não foi a violência dos bairros, mas o racismo ou xenofobia pelo facto de não ser Francês. Muitas das vezes que ia a uma padaria ou supermercado mandavam-me mostrar e abrir a mala e certas vezes os funcionários mandavam o segurança revistar-me. Bastava eles repararem que eu não falava bem francês. Inicialmente pensei que se calhar era consequência de eu andar com mau aspecto, por isso comecei a fazer mais regularmente a barba e a vestir-me melhor. Mas nada feito, as atitudes mantinham-se. A verdade é que só com os estrangeiros é que esse tipo de coisas se passava. Conheci um Brasileiro com sangue índio que era revistado todos os dias à entrada do supermercado até ser conhecido pelo segurança como cliente habitual. Coisas deste género também vivi em alguns cafés e pastelarias. Um dia cheguei a irritar-me de tal forma numa pastelaria que passei a frequentar uma pastelaria gerida por árabes, só para psicologicamente me “vingar” dos Franceses filhos, netos e bisnetos de Franceses.
No trabalho também se passaram alguns momentos caricatos. Um operador de equipamentos de Nanotecnologias, logo no primeiro dia que trabalhou comigo, depois de me ter perguntado se em Portugal havia paludismo, disse-me que eu devia ir para a minha terra, que nós os Portugueses só sabíamos ocupar o trabalho dos Franceses. Eu bem lhe tentei explicar que o meu estágio não era remunerado, mas mesmo assim ele continuava a tecer comentários para mim desagradáveis. Outros colegas de trabalho perguntavam-me se em Portugal as crianças eram ensinadas desde muito novas a arte da construção civil. Alguns contavam-me anedotas sobre os Portugueses, daquelas que consideram os Portugueses uns atrasados mentais.
Nos seis meses que passei em Compiègne, morei com um rapaz de Paris, um rapaz que estudava na Universidade onde estagiei. Quando desabafei com ele as minhas experiências com os Franceses xenófobos, o rapaz explicou-me que os Franceses do Norte de França são mesmo assim. Até são xenófobos em relação aos Franceses de Paris e de outras cidades do Sul, disse-me ele. Tal informação em relação aos preconceitos gerais sobre os Franceses da zona onde estava não me acalmou, muito pelo contrário, deixou-me irritado durante alguns tempos. Pelo menos até eu ter conhecido gente simpática daquela terra, na verdade nem todos foram racistas e xenófobos, principalmente quando tinham alguma formação e cultura.
Os tempos em França passaram, voltei a Portugal, ao país onde supostamente nunca me excluíram, à minha terra. Este relato acaba com um passeio durante uma tarde num dia solarengo pela baixa de Lisboa. Ia para atravessar uma passadeira quando uma senhora de ascendência Africana se encontrava já no meio da estrada. Um carro parou à sua frente e o grupo de jovens que se encontrava dentro do veículo começou a gritar, imitando o sotaque Africano, “ó macaca, sai da frente, volta para a selva macaca”. Nesse momento sabia perfeitamente o que a senhora estava a pensar. Filhos da puta há em todo o lado e se um dia acontecer em Portugal o que se passou recentemente em França, a culpa será desses filhos da puta e não dos estrangeiros, dos imigrantes ou dos partidos de esquerda benevolentes.

domingo, novembro 27, 2005

Frango, Peru e Baltazar

Na última edição da revista Visão encontra-se uma entrevista a Miguel Cadilhe, onde este se refere a Cavaco Silva como sendo “como um eucalipto, que provoca aridez à sua volta”. Lembrei-me então de uma pequena notícia que li a 28 de Maio de 2005 no sítio do jornal Público. Encontra-se de seguida esse artigo. Não percebo bem se as declarações de Cadilhe irão dar ou tirar votos a Cavaco. Portugal está sempre a surpreender-me. Defendendo o que defende ideologicamente, se o eleitorado do PSD alguma vez tivesse levado Cavaco a sério, este nunca teria sido Primeiro Ministro. É o que acontece quando se elegem encenações em vez de pessoas capazes. Mas um ponto fica claro nesta notícia, lá se vai o mito de Cavaco ser um grande profissional do firmamento económico português. Para além de já ser mais que senso comum o conhecimento da sua aversão relativa à Ciência, à Literatura e à Arte, para não falar do seu constante afastamento no que toca a comentar o mais simples problema do país que se afaste das temáticas dos textos da sua cassete, eu pergunto–me sobre o que será Cavaco que não seria com igual qualidade um velhinho senil num lar de terceira idade? Um velhinho bem encenado, claro.

Notícia:

Novo Sistema Retributivo da Função Pública
Função pública: Miguel Cadilhe responsabiliza Cavaco Silva por aumentos que agravam défice
O antigo ministro das Finanças Miguel Cadilhe, responsabiliza Cavaco Silva pelo aumento da massa salarial da função pública, promovido nos anos 1990, que hoje é responsável por 15 por cento do Produto Interno Bruto (PIB). Cadilhe, num artigo para o livro colectivo "Cidadania, uma visão para Portugal", recorda aquilo que o ex-primeiro-ministro social democrata já admitia na sua "Autobiografia política".
Cadilhe escreve, segundo cita hoje o "Expresso", que "os trabalhos preparatórios do novo sistema retributivo da função pública (...) correram sob a responsabilidade directa de Cavaco Silva", referindo-se aos alicerces do Novo Sistema Retributivo da Função Pública que colocou a administração pública portuguesa no terceiro lugar entre as mais caras da Europa.

O sistema foi aprovado em conselho de ministros em 1998, recorda Miguel Cadilhe, no qual o ministro das Finanças se mostrou preocupado. De acordo com as palavras citadas pelo semanário, o então ministro terá tentado precaver problemas futuros impondo condições para a aplicação do novo sistema, nomeadamente a redução de despesas e melhoria de produtividade.

Cadilhe não hesita em denunciar que o Governo não deu sequência às suas propostas e conclui que isso "teve efeitos avassaladores" nas despesas estatais. O ministro escreve que o caso "foi uma demonstração de como uma importante e justa reforma pode ficar a meio do caminho, derrapar e virar-se contra o reformador".

O "Expresso" escreve em manchete que Cadilhe acusa Cavaco de ser pai do "monstro" do défice, um dos epítetos pelos quais ficou conhecida a dimensão da ruptura das contas públicas portuguesas.
PUBLICO.PT (28 de Maio de 2005

domingo, novembro 20, 2005

Salazar e Franco

É verdade que já há algum tempo não escrevo por estas bandas. Acontece que a preparação para uns exames que se aproximam me tem tirado a disponibilidade e a vontade de aqui escrever. Mal acabem esses exames, a situação vai mudar.
Muito se tem passado no mundo e no país que merece reflexão, crítica, ou mesmo só divulgação.
Fica por agora só isto:
Acabei de ver um documentário na RTP sobre a relação política existente entre Franco e Salazar. A quem não viu, recomendo vivamente.
Há cerca de uns anos estava na moda advogar a tese de que Salazar teria sido um anti-fascista. Desde declarações em televisão do Professor Saraiva, passando por uma aula de Introdução ao Direito que assisti na Lusíada e acabando em palavras ouvidas pela boca de Adriano Moreira numa conferência, muitos tentam hoje em dia mascarar os crimes de Salazar e do seu regime. Se por vezes a História é parcial, o verdadeiro e bem documentado relato dos factos tende a ser mais verdadeiro. E é verdade que não só um grande número de prisioneiros políticos, mas muitos militares portugueses e civis espanhois sucumbiram às políticas de tiro certeiro de Salazar.
As vítimas mortais do fascismo ibérico foram muitas e as circunstâncias dessas mortes revoltantes. Como é possível o fascismo ser ainda defendido por muitos cidadãos deste país?

domingo, novembro 06, 2005

Domingo Sunday

Hoje estava tanto vento que as folhas chegavam ao nosso terceiro andar. Abri as janelas todas para arejar a casa, e algumas entraram em casa.

Quando fui tomar café à Walnut, uma folha chocou-me na cara, e outra no peito, foi engraçado. Esteve sol e depois choveu e depois fez sol outra vez, mas sempre com muito vento.

Bebi café enquanto li o Lunário, e estou a gostar. Os tipos estavam a passar Mariza outra vez (acho que eles gostam mesmo daquilo), e eu ofereci-lhes um CD com música portuguesa, mas não sei se o gravei bem. Se não para a semana levo-lhes outro.

Pensei muito em ti hoje. O tempo é tão curto, o tempo de uma vida, passa a correu, não o conseguimos apanhar, não é?

Para mim não faz sentido estarmos longe. Vou mudar a viagem para ir para aí mais cedo.

Um dos teus embrunhos chegou. Abri com cuidado. Era um beijio enviado da estação de Nelas. Recebido e confirmado. Já recebeste o meu embrunho? Deve bater-te à porta do quarto daqui a pouco. Quando estiveres quase a dormir.

Amo-te.

I love you

Por onde voei levei-te sempre comigo, meio em saudade, meio por seres uma parte doce já bem dentro de mim. Por Lisboa olhei de fugida o rio e os prédios grandes, estava de corrida para as Berças. O Tejo em jeito de mar assustou-me.
Entrei num Comboio e fiquei até Nelas a fazer embrulhos de beijos com todas a camadas verdejantes que começam a cobrir as terras queimadas no Verão. Assim que chegar outra vez ao teu lado, dou-te esses embrulhos e passamos umas horas a abri-los. Depois...
Depois continuamos, e tentarei evitar o grande disparate que é estar longe de ti. Entretanto, voltarei a Lisboa para a fotografar.
Eu cá amo-te. Esta terra de Pittsburgh fica sem piada quando tu não estás cá. As cores de Outono são as mesmas, o vermelho é lindo nas árvores e há imensas folhas a voar, tu sabes. A nossa casa parece mais escura e mais fria. Volta depressa.

Agora estás a voar, no meio do oceano. É noite, deves estar a ver um filme dos que eles passam nos aviões. Será que vais estar acordado quando o sol nascer?

Espero que chegues bem a esse lado do mundo. Dá um abraço a Lisboa por mim. Tira fotos a Lisboa e manda-me, se tiveres tempo. Eu faço o mesmo com o Outono em Pittsburgh.

Até já.

quinta-feira, novembro 03, 2005

Os Liberais

Numa conversa com o meu amigo Nuno Teles Sampaio, ele disse-me que o lugar da esquerda nos Estados Unidos da América (EUA) está ocupado pelos Liberais. De facto é estranho tal acontecer, principalmente quando se verifica que quem ocupa o lugar da esquerda em Portugal se demarca aberta e claramente das novas tendências políticas Liberais que renascem tardiamente neste país.
Ao chegar aos EUA, tentei informar-me, sem grande urgência, se tal era verdade. Para tal, para além de ler o New York Times com alguma assiduidade e a revista Time quando num Cabeleireiro em Nova Iorque, conheci um café em Pittsburgh, na Wallnut Street. Aí, pessoas assumidas de esquerda encontram-se aos Sábados de manhã para debaterem temáticas políticas. Não se encontra ninguém conhecido, nem de carreira política, a gente ronda a idade dos trinta, encontram-se mais homens que mulheres. Fiquei sempre à parte dessas “tertúlias”, ou a comentar o que se falava numa conversa à parte com a Inês, ou a mexer no portátil com ar ocupado, mas sempre a ouvir o que se ia discutindo. Destas experiências de leitura e de escuta cheguei à conclusão que o lugar da esquerda, onde quer que seja, é ocupado por quem tem uma atitude subversiva e revolucionária em relação ao sistema dominante, nunca por quem defende uma política específica. Se essa política não se apresenta contra o sistema de uma forma revolucionária, não é de esquerda.
Os Liberais nos EUA são a esquerda por várias razões, mas de um modo geral porque são liberais em relação a tudo, não só às questões relacionadas com o livre mercado e a economia, como acontece com os Liberais portugueses. Ao serem a favor da livre concorrência e contra as restrições impostas pelo Estado no mercado, são contra o sistema americano. Por exemplo, o facto de se assumirem contra leis proteccionistas da indústria e comércio de automóveis de marca nacional, faz dos Liberais americanos indivíduos contra um dos maiores Lobbys com mais influencia na política dominante americana. Mas não se ficam pela economia, assumem-se por exemplo a favor de casamentos entre homossexuais, a favor de uma sexualidade livre, contra a intervenção americana no Iraque, a favor da liberalização das drogas, a favor da descriminalização da prática abortiva, contra as restrições à investigação com células estaminais embrionárias, contra leis que se apliquem com invasão da privacidade de um indivíduo, contra qualquer medida em todo o plano de actuação política que prive o ser humano da sua liberdade.
Compreendo assim que ocupem o lugar da esquerda, visto defenderem muitas causas também defendidas pela esquerda portuguesa e que se apresentam revolucionárias no sistema em causa. Embora eu seja de esquerda, não posso dizer que sou Liberal porque, contrariamente a esta corrente, defendo as medidas de protecção do ambiente e acredito na existência de organismos do Estado, como a Saúde, a Educação e a Segurança Social, como entidades de prestação de serviço público, em vez de empresas com a Meta de terem lucro. Também tenho a opinião de que o mercado anárquico, sem algumas linhas orientadoras de restrição para controlo da sua acção na Estabilidade Social, provoca no Mundo a incidência em situações que agridem a Sociedade, o bem estar do Homem, ou aumentem a Fractura Social entre Ricos e Pobres. Mas, em tudo o resto assumo-me Liberal. Mas obviamente, para se ser Liberal ou se é por inteiro, ou não se é, logo eu seria desonesto de me assumisse como tal.
É um pouco isso que vejo nos Liberais em Portugal, pessoas que se assumem como Liberais, mas que só o são nas temáticas que lhes dá jeito politicamente, mas no resto não. Liberais desonestos ou falsos Liberais, como eu. Como eu, mas por razões diferentes das minhas, razões que dão jeito à Direita.
Se por um lado existe um CDS-PP e um PPD-PSD que se assumem como Liberais em termos económicos, o primeiro assume-se Conservador em tudo o resto e o segundo assume-se conforme o líder do momento, mas nunca Liberal por inteiro. Agora Marques Mendes apela ao emagrecimento do Estado, à necessidade de privatizações e concessão de Gestão Privada a muitas entidades e instituições de utilidades pública. Isto é ser um pouco Liberal, mas não chega, se Marques Mendes é liberal por isto, eu também o sou por defender outras políticas liberais que este rejeita sem pensar duas vezes: o aborto, a livre entrada de têxteis chineses, a liberdade sexual, etc...
Como exemplo, na esquerda, à excepção do Bloco de Esquerda, a esquerda dominante é a favor do embargo aos têxteis chineses para a protecção da indústria portuguesa. Mas verdade seja dita, não é só a esquerda, mas quase todo o espectro político, incluindo aquela parte que se assume Liberal em termos económicos.
Vejo os Liberais em Portugal com uma atitude muito diferente dos que vejo nos EUA. Enquanto neste, eles assumem uma atitude revolucionária e contra o sistema, em Portugal eles, sejam ou não Liberais por inteiro, têm uma atitude reaccionária no plano de acção política nacional. Apoiaram José Sócrates, apoiam agora Marques Mendes e Cavaco. Embora se assumam como um grupo elitista e minoritário, também se assumem a favor do sistema, contra as temáticas revolucionárias, como consequência não causam moça nem comichão. Embora afirmem ser contra o sistema, acabam sempre por apoiar os partidos e os políticos que não os representam e que deles discordam politicamente. Diria mais, que os Liberais em Portugal se preocupam mais em atacar a esquerda do que em divulgar e lutar pelas suas ideias políticas.
Será que há Liberais em Portugal, ou pessoas de Direita que se identificam só com algumas ideias Liberais?

segunda-feira, outubro 31, 2005

Cavaco Silva por Mário Soares

Recomendada por um amigo, fui ler uma entrevista feita a Mário Soares pela altura da comemoração dos seus 80 anos, muito antes de ele considerar ser outra vez candidato a Presidente da República. Verdadeiramente, o teor da entrevista revela Mário Soares como um retirado da política. É extremamente honesta e sem artifícios de valorização política para qualquer luta pessoal, é uma entrevista de memórias sinceras.
Gostei de ler sobre Cavaco Silva aquilo que eu também acho dele:

“Tenho respeito por eles todos, incluindo o Cunhal. O Cunhal é de uma inteligência superior e de uma grande cultura, não só marxista-leninista. Mas é um tipo com talas, só vê aquilo que quer ver e não sai dali, uma teimosia enorme, não reconhece o erro, está convencido que o mundo todo errou e que ele é que está certo. Vai morrer assim. Talvez seja bom para ele, e até ficávamos desiludidos se ele agora aparecesse a dizer que se tinha enganado. O Freitas do Amaral é um grande jurista, um homem inteligente, um grande político, um homem de bem. O General Eanes é um militar, prestou grandes serviços na altura em que foi preciso normalizar as Forças Armadas, é um homem de uma grande seriedade, não é um homem de uma grande cultura. O Cavaco é um homem extremamente sério, honrado, competente na sua esfera que são as finanças e a economia. Mas não é um homem com uma grande cultura política, nem sequer literária. É muito profissional, no sentido americano do termo: sabe tudo da asa da mosca, mas não sabe mais nada, como dizia o Eça de Queirós.”

Presidenciais (VI)

Agora que Cavaco já quebrou o seu círculo de segredos e se assumiu de vez como candidato a Presidente da República, Soares já começou a puxar o candidato Social Democrata para a arena de campanha. É interessante reparar que, por vontade de Cavaco, a sua campanha continuaria na pasmaceira da construção do mito à volta do enaltecer da sua personalidade, sem debates, sem respostas directas a questões, sem ideias concretas, sem imagens reais, sem o circular de informação, ou seja sem transparência.
Se o Governo de Cavaco se pautou pela ausência de transparência e pela encenação, por parte de algumas emissões da RTP da altura, de uma imagem de grande e carismático estadista, a sua campanha para Presidente da República está a seguir o mesmo caminho.
Ao se aceitar o afastamento de Cavaco Silva de uma normal actividade de campanha para PR, das duas uma, ou se aceita por discriminação positiva, como se concede a pessoas com deficiências numa data de circunstâncias, apresentando assim Cavaco algum problema físico ou mental que o incapacita de fazer campanha, ou Cavaco não é um homem mas sim um autómato político já programado, com uma rotina de campanha inalterável, previamente definida. Visto que a monarquia já findou neste país, não podendo ser Cavaco um Rei para se comportar com tal desprezo, será antes um desabilitado ou um computador? Neste último caso, quem o programa?

sábado, outubro 29, 2005

Os Profissionais e a Televisão

Durante os momentos de crise do Governo de Pedro Santana Lopes e durante as últimas Eleições Legislativas, as televisões de conteúdo geral, como a SIC, RTP 1 e TVI, e as televisões de conteúdo noticioso, como a SIC Notícias e a RTP N, bombardearam as suas emissões com curtas entrevistas a Economistas Profissionais.
Estes apareciam normalmente de óculos e ar sério, todos bem aprumados num fato à trabalhador de uma empresa de consultoria com um nome estrangeiro, como Johnsons, Anderson’s and Brothers Consulting ou algo do género. As suas vozes sérias e bem timbradas concediam-lhes um ar imparcial e analítico. Ninguém lhes conhecia as caras ou os nomes, mas apareciam como especialistas, peritos científicos para avaliar o impacto das medidas de Governos no estado da economia Nacional.
E então os imparciais jornalistas perguntavam com ar preocupado como um doente de cancro pergunta a um médico quanto tempo lhe resta: Que medidas deverá um Governo tomar para melhorar o nosso estado da economia? Aí vinha sempre a mesma resposta, medidas impopulares: desinvestimento no sector público, despedimentos de sectores da função pública e privatizações de Património do Estado. Não falavam de uma Reforma Fiscal para obrigar os que não pagam impostos a pagar, não falavam em cortar nos salários elevados, nas bonificações e regalias dos Altos Funcionários do Estado. Não falavam eles nem os políticos e cidadãos que vivem do problema e não das soluções. Também não falavam no investimento em Educação e no apoio ao desenvolvimento de novas tecnologias e projectos empreendedores. Quem veio falar nisto tudo foi José Sócrates, um pouco inspirado pelas evidências do país, um pouco inspirado pelo agora Secretário de Estado Manuel Heitor. Diga-se de passagem que veio falar, mas pouco ainda se viu a fazer nesse sentido, a não ser fogo de vista.
Voltando aos profissionais analistas do estado da Economia Nacional. Estes debitavam na tv as suas sugestões científicas para um Governo agir e tudo ficava no tom do está provado cientificamente que isto deve ser feito assim. O Povo ficava assim informado por peritos sobre o discurso que deveria ter um candidato a Primeiro Ministro.
Reprovo a atitude das cadeias de televisão em terem divulgado declarações destes economistas como sendo imparciais e não políticas. Contrariamente à Engenhara Civil, que pode dizer exactamente se uma ponte vai abaixo ou não, ou a outro ramo exacto de acção científica, a Economia é uma ciência não exacta, está inserida nas Ciências Humanas. Isto quer dizer que, como em Sociologia, para um mesmo problema ou caso de estudo, podem haver várias interpretações e soluções igualmente válidas, tendo em conta as mesmas premissas económicas. Ao dogmatizarem as opiniões em uníssono destes Profissionais Economistas, as cadeias de televisão fizeram campanha política por quem defende as ideias expostas. Ao se exporem estas opiniões isoladas e deste modo, estes economistas estão a ser objecto de propaganda política.
É pena, nos dias de hoje, as cadeias de televisão quase nunca passarem as duas faces da moeda que noticiam. Assim acontece.

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro"

quarta-feira, outubro 26, 2005

Presidenciais ( Uma Perspectiva)

O melhor texto que li até agora sobre o actual estado e expectativas da Campanha para as Eleições Presidenciais. Na Bicicleta.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Presidenciais ( V )

Cavaco Silva vai apresentar hoje a sua candidatura, tendo já dito que se apresenta “como um factor de estabilidade e esperança”.
A palavra da moda na política nacional durante o final da Legislatura levada a cabo por Santana Lopes era SERENIDADE. Todos os políticos viviam um estado de alma em plena serenidade, tomavam as suas decisões com serenidade, ponderavam os problemas com serenidade e as soluções eram apresentadas em plena serenidade. O uso excessivo dessa palavra não ficou só pelo Governo de então, passou pelo discurso de um conjunto de declarações à sociedade civil por parte de quem se dirigisse a ela. O excesso de serenidade até chegou ao Palácio de Belém, floreando os discursos de Jorge Sampaio.
A palavra da moda nesta legislatura, mas lançada por Marques Mendes, é SERIEDADE. Para o bem Nacional, não só as declarações, as decisões, as ponderações, as soluções, as campanhas, os pequenos almoços têm de ser tomados com seriedade, mas para Mendes, só os senhores do PSD e uns quantos coligados do CDS-PP têm seriedade, o que resta do país ele deve considerar um bando de palhaços, perturbados mentais ou acéfalos. A realidade real mostra que isso não é verdade e o bom senso e a lógica também. Pergunto-me é se não serão Marques Mendes e Cavaco Silva, o ressuscitado arauto laranja, que sofrem de falta de seriedade e consideração pelos portugueses?
Estou certo de que cada vez mais nos dias de hoje as aparências iludem e ninguém desfaz a ilusão causada por elas. Não tenho dúvida de que Mendes e Cavaco têm um ar sério, um timbre de discurso sério, um sorriso metálico sério, um caminhar sério e se acompanham de personalidades igualmente banhadas em seriedade. Então e as palavras, as políticas, o que se faz e que se fez? Não são essas acções, mais do que as aparências e o marketing, que definem a seriedade de uma pessoa?
Mendes abandonou o PSD e suas funções partidárias no decorrer das acções dos últimos dois líderes laranjas e age como se o que daí resultou não tivesse existido. Que seriedade tem um líder de um partido que não reponde pelo passado, presente e futuro desse partido? Que seriedade tem o presidente do PSD ao pautar o seu discurso de campanha nas últimas Eleições Autárquicas na base do insulto e da calúnia pessoal? É verdade que não o fez no timbre de uma peixeira do Bulhão, é verdade que usou a sua colocação de voz à Margaret Thatcher, mas será esse o destino da seriedade na política nacional, agir como um carroceiro sem princípios, mas com um tom sério e salazaresco? Na minha opinião a diferença entre Marques Mendes e Valentim Loureiro é a forma e não o conteúdo.
Quanto a Cavaco Silva, o seu manchado passado de há dez anos hei de lembrar futuramente, mas presentemente já há que baste. Hoje vai apresentar a sua candidatura para Presidente de República no Centro Cultural de Belém. Apresentar depois de já se ter feito uma campanha silenciosa e desleal à sua volta, depois de já ter registado o sítio da Internet www.cavacosilva.pt, depois de ter anunciado aos seus cidadãos de primeira, como Ribeiro e Castro, a sua candidatura, depois de ter desrespeitado os seus cidadãos de segunda, que lhe vão dar o voto, a desviar o assunto da sua candidatura em declarações, a desvalorizar qualquer anúncio claro, transparente e honesto, em detrimento dos seus jogos de reputação incerta nos bastidores. Que seriedade tem um homem que ao ser apresentado por Nuno Morais Sarmento como um Presidente para governar a partir de Belém, admite o estado de crise do país e a urgência de actuação contra essa crise, mas está longos meses mudo para os Portugueses, a fingir-se fechado e atarefado de mais para o país no seu meio de elite universitária? Isto é seriedade, desrespeitar a informação aos portugueses, colocar figuras menores a fazer o seu trabalho sujo, não se assumir por inteiro, de frente à população que quer Presidir?
No outro dia ouvi na Antena 2 um documentário que me lembrou este Cavaco Silva, era sobre o modo como Salazar tinha agido na Campanha para Presidente da República do General sem Medo. Todas as suas escondidas acções políticas de então me lembraram agora Cavaco Silva. Mas Salazar era mais honesto, publicamente assumia valorizar que o Povo fosse bruto, ignorante e que nada soubesse do que acontecia nas esferas do poder. Aí ouvi o seu discurso conclusivo, após efectuado o escrutínio eleitoral. Nele ele dizia algo do género: “Alguns eventos tentaram abalar a calma (..) mas a minha fria serenidade e seriedade a que vos tenho habituado não foi abalada”. Que seriedade teve o maior assassino da História Portuguesa?
Estas eleições são um teste. Nelas se vai testar se as raízes do salazarismo ainda sustentam o panorama político e social deste país à beira mar plantado.

Presidenciais ( IV )

Já há uma página da Internet destinada à candidatura a Presidente da República de Francisco Louçã.

quarta-feira, outubro 19, 2005

terça-feira, outubro 18, 2005

É notícia hoje

No Público Online Última Hora de hoje vem anunciado que “Teerão enviou queixa ao tribunal iraquiano que vai julgar ex-ditador”, “Irão quer Saddam julgado pela invasão do país”. É interessante lembrar que o Governo Americano de então esteve envolvido até ao pescoço no apoio a Saddam nesta guerra. Como o mundo muda!

Presidenciais ( II )

No anterior texto aqui publicado cometi o grave erro de não me ter referido a Jerónimo de Sousa, candidato apoiado pelo PCP. Foi um erro inocente e espontâneo mas que eu compreendo muito bem. A meu ver, este é o candidato mais fraco, não no sentido dos votos que pode vir a ter, mas no sentido do que a sua candidatura representa. Na prática, a sua candidatura existe e vai até ao fim, sem abdicar a favor do candidato da esquerda que demonstrar mais força, por causa do Bloco de Esquerda. A imagem de ver simpatizantes comunistas a darem o seu voto ao BE deve ser algo que o aterroriza. É portanto uma candidatura forçada pelas circunstâncias e não de convicção.
Jerónimo de Sousa é um comunista ortodoxo e foi um dos membros do Comité Central responsável pela expulsão ou afastamento de vários militantes do PCP que demonstravam opiniões de acção política divergentes da linha orientadora do Partido. Como Cavaco, arquitecta à sua volta uma imagem muito diferente do que verdadeiramente é. Centra-se no valor das suas raízes proletárias e na sua negação às riquezas materiais em favor dos valores e princípios do Comunismo. Se Cavaco deseja passar por um D. Sebastião salvador da pátria, Jerónimo deseja passar por um São Francisco que se imiscui com a raia miúda e que se valoriza através dela. Mas na verdade foi um frio carrasco quando se cortaram cabeças a seus camardas históricos do PCP.Ao suceder a Carlos Carvalhas, Jerónimo nada tem mudado na linha dura ideológica do PCP, mas tem mudado o modo de acção política do partido. Ao se ter apercebido que o seu sentido ideológico se encontra esgotado e desacreditado, Jerónimo de Sousa tem enveredado pelo populismo inconsequente. Populismo esse que lhe tem dado uns votos, mas que na minha opinião é estéril e tem corrompido irreversivelmente os alicerces políticos deixados por Álvaro Cunhal no PCP. Esse sim, um homem sério e verdadeiro, que tendo mais potencial populista que Jerónimo, nunca o usou, do qual eu ouvi dizer pessoalmente: podem discordar de mim em relação a tudo, mas nunca de eu não dizer a verdade e ser verdadeiro. E isso a História demonstrou ser verdade.

Presidenciais ( I )

As Eleições Presidenciais aproximam-se. O ressuscitar, assumido ou não pelo mesmo, do Prof Cavaco Silva nas lides da política activa também me ressuscitou na memória do Viseense que sou um conjunto de eventos, declarações e imagens, que andavam adormecidas no meu subconsciente desde a altura em que o Eng António Guterres já não podia desculpar más performances políticas do seu Governo com más condições de governabilidade deixadas pelo seu antecessor. Isto de um Primeiro Ministro falar mal do Governo anterior para desculpar os seus erros ou medidas impopulares não foi moda lançada pelo Dr Durão Barroso.
A verdade é que as memórias da política cavaquista de há dez anos e o turbilhão político que se vive actualmente à volta das Presidenciais obriga-me a dedicar grande parte dos próximos escritos publicados neste Blog aos candidatos e à campanha que se vive e se avizinha.
As Eleições Presidenciais vão ser disputadas, até ao momento, entre quatro candidatos de esquerda e um de direita, cinco ao todo, pelo que não devo cair no erro de me centrar numa crítica privilegiada a um só, mesmo tendo eu vivido em pleno Cavaquistão durante o cavaquismo. Já bastam as televisões e as rádios a bipolarizar estas eleições em duas personagens: Cavaco Silva e o candidato de esquerda que conseguir ir a segunda volta. Devo referir antes de mais que o meu candidato é o Prof Francisco Louçã, não só por simpatizar com ele em termos partidários, mas principalmente por ser ele o único dos cinco que tem a noção dos actuais problemas do país sem se focalizar somente numa temática conforme a sua especialidade académica, profissional ou política. A sua candidatura vai de encontro a uma pluralidade de temáticas que urgem discussão em Portugal.
Os candidatos apresentam todos bons currículos.
Manuel Alegre, um homem da literatura e da política nacionais, uma pessoa íntegra que soube sempre cumprir com os seus deveres e obrigações em todos os cargos que cumpriu. Lembro-me do caso da sua participação no processo de discussão sobre a Co-incineração em Souselas. Na altura Manuel Alegre era deputado do PS por Coimbra e soube manter-se ao lado da vontade dos cidadãos que representava, posicionando-se contra as tendências do seu partido e contra qualquer evidência científica que viabilizasse a co-incineração em termos ambientais. Em decisões políticas, para Manuel Alegre primeiro vêm as pessoas do seu país, depois o PS e só depois ele mesmo. É um homem totalmente virado para a esquerda, um homem transparente, sem segredos, que nunca meterá o Socialismo na gaveta em troca de nada.
Meter o Socialismo na gaveta remete o texto obviamente para Mário Soares, histórico fundador do PS, histórico combatente antifascista, antigo Primeiro Ministro, antigo Presidente da República. Um homem frontal, mas não tão transparente como Alegre. Um veterano nas campanhas para cargos políticos e também a vencê-las. Depois do 25 de Abril,ao contrário dos outros candidatos, Mário Soares teve sempre uma presença mediática forte, mesmo depois de ter sido Presidente da República e fora do âmbito das campanhas do PS. Participou em programas de televisão, em eventos culturais, em comemorações nacionais. Isto para não falar dos livros que já escreveu. Ao contrário de Alegre, pactuou com a Direita quando tal foi necessário na sua conquista de poder e reconhecimento. Em oposição a Cavaco Silva, Mário Soares nunca teve a necessidade de se afastar da vida pública para limpar a sua imagem política e recuperar forças para voltar à acção no cenário político-partidário. Talvez seja essa a sua maior desvantagem nesta sua candidatura, uma presença já farta e demasiada na consciência e memória dos portugueses, mesmo que sendo por coisas boas. É inevitável tal não acontecer num país corroído por um pessimismo e sentimento de descrença contra as figuras políticas de relevo do presente, como sempre foi Mário Soares, um político do presente.
Cavaco Silva, um homem mais novo que Soares, mas mais a viver do passado, do passado encenado através das fabricadas “memórias das glórias” da altura dos fundos comunitários da UE. Altura em que havia dinheiro a entrar em Portugal. Um homem fechado, obscuro, nada transparente, um homem que esconde muito do que é. O único de todos os candidatos que mais apoio e tempo teve em construir uma imagem limpa e que melhor estratégia teve para o fazer. Não só se refugiou para o fazer sem alaridos, como o fez durante dez anos, tempo mais que suficiente para a fraca memória dos portugueses esquecer o estado deplorável em que se encontrava a sua imagem política na altura em que se afastou e ,mais importante, a sua governação como Primeiro Ministro. Talvez sabendo que os portugueses se fascinam com os mitos, Cavaco soube sempre agir de modo a mitificar o seu nome. Lembro-me por exemplo da desculpa que inventou para se ter tornado líder do PSD, comprou um automóvel e aproveitou o Congresso do PSD na Figueira da Foz como pretexto para fazer uma rodagem do veículo. Eu pessoalmente não acredito nisso, Cavaco é de todos o que melhor joga nos bastidores, fora das câmaras, dos microfones e das revistas, sempre o mostrou fazer muito bem. É um homem calculista e frio com a determinação de cultivar na psique dos portugueses uma imagem sua de “Homem Determinado Pela Fortuna do Destino” a ser o governante e presidente do país, contra os seus desejos, mas pela obrigação de lutar pela pátria, mesmo que para isso tenha que desistir do que tanto ama, ensinar.
Francisco Louçã, indiscutivelmente um homem de esquerda, mas virado para todos os portugueses e para os seus problemas. Quando Cavaco é tão bem citado por Marcelo Rebelo de Sousa por ser o economista que Portugal precisa na Presidência da República para arranjar o país, eu só me lembro do currículo académico brilhante de Francisco Louçã na área da economia, ainda em tão relativa tenra idade. Louçã e Cavaco formaram-se ambos na mesma Escola (Instituto Superior de Economia e Gestão) e ambos lá leccionaram. Actualmente Louçã continua a exercer a actividade de docente nessa Escola, enquanto que Cavaco a exerce na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Em comparação com Louçã quando tinha a idade deste, Cavaco tinha um currículo muito mais fraco do que agora apresenta o candidato do BE. O talento de acção política de Louçã extravasa o plano da economia. De facto tem-se revelado o mais plural de todos os candidatos nos diferentes campos de acção política nacionais. Tem como desvantagens a sua juventude e falta de apoio de um grande partido. Na verdade, Louçã fez mais e deu mais imagem ao BE do que o BE fez ou deu a Louçã. Louçã é por isso um homem do país, virado para todos os portugueses e não um produto de gestação partidária.

domingo, outubro 16, 2005

Início

Estou nos Estados Unidos da América. Ontem falava com a Inês e ela disse-me que o conceito de liberdade neste país é diferente do conceito Europeu. Aqui um indivíduo ao ser livre também é absolutamente responsável por si mesmo, não sendo nenhuma entidade pública ou privada obrigada a ter qualquer atitude de apoio numa altura de necessidade desse indivíduo.
Num cenário deste género só se imagina o apoio e ajuda a pessoas necessitadas através da caridade. Isso explica em parte o fenómeno Katrina em Nova Orleães. Um outro exemplo que a Inês deu para explicar este conceito foi uma medida da altura da Administração Reagan, em que se fecharam muitas instituições de tratamento psiquiátrico pelo simples facto de toda a gente ter o direito de ser livre "in the land of the free". Claro que o Estado também deve ter cortado imenso na despesa pública com esta medida, mas quem estabelecesse tal ligação maquiavélica nessa altura seria acusado de Nazi Comuna Vermelho e Traidor da Nação.
Normalmente eu enviaria esta mensagem a inúmeras caixas de correio da minha lista de contactos pessoais, agora esse tempo chegou ao fim. As pessoas passam a estar livres das minhas opiniões e passagens de informação nos seus mails, passando também a estar livres de visitar este Blog.
A todos um grande Bem Haja.